EXPOSIÇÕES
UNIVERSAIS
BARCELONA 1929
Cristina Ferreira cie Almeida
Texto
Cristina Ferreira de Almeida
Revisão cie Texto
Fernando Milheiro
Design Gráfico
Luis Cliimeno Garrido
Coordenação de Edição
Fernando Luís Sampaio
Coordenação de Produção
Diogo Santos
Fotocoinposição, Selecção de cor e Fotolitos
Facsimile, Lda.
Impressão
Seleprinter, Sociedade Gráfica, Lda.
Créditos Fotográficos
Arxiu Fotogràfic/Arxiu Historie de la ciutat de Barcelona.
Fotos de Caries Rodès.
As fotografias da página 45 foram cedidas pela Fundação
Mies van der Rohe, a quem agradecemos na pessoa
do seu director, Lluis Hortet. Fotos de Pau Maynès ©.
Depósito Legal
92794/95
ISBN 972-8127-21-9
Tiragem
2 000 exemplares
Lisboa, Outubro de 1995
Uma Edição
EXPOQ8
_I> As contradições de uma época. 7
1929 em Wall Stret. 9
0 imparável progresso. 10
Tendências do modernismo. 14
Barcelona no interlúdio monárquico. 16
A cidade da exposição. 25
II A Preparação da festa. 35
As opções portuguesas. 44
Solenidades dos primeiros dias. 56
Um roteiro seleccionado. 70
BIBLIOGRAFIA
84
AS CONTRADIÇÕES
DE UMA ÉPOCA
H primeira exposição internacional de Barcelona realizon-se em
1888. Vinte anos depois começou a ser planeada a segunda, des¬
tinada a ter por tema a indústria eléctrica. Não fosse a Primeira
Guerra Mundial e a segunda exposição universal da cidade teria pos¬
sivelmente acontecido logo no início do século XX. Assim, acabou
por ser relegada para 1929. No espaço que medeia o planeamento e
a concretização da exposição as mudanças internas em Espanha
foram velozes. Os anos de 1929 e de 1930 são de charneira entre
diferentes modelos de sociedade. A Espanha desta época está per¬
corrida de convulsões internas. Na Exposição Internacional de
Barcelona, o Estado procura dar de si mesmo uma imagem de força e
estabilidade. Atributos já bastante fragilizados aquando da inaugura¬
ção da exposição. À distância, as aspirações políticas e sociais que
guiaram a construção da mostra assumem traços grossos, quase
caricaturais. Mas que não devem esbater o que a exposição também
teve de esforço ingénuo e espontâneo. Feito mais a pensar num
momento preciso do que no que dele ficaria para o futuro.
Respondendo a aspirações profundas e a convicções enraizadas.
De grande impacto mediático, a Exposição Internacional de
Barcelona de 1929 é peculiar, tanto pelo momento político em que
foi realizada como pela ligação que representou entre a Catalunha,
tradicionalmente rebelde, e o poder central de Madrid. Na história
de Barcelona, o período temporal entre as duas exposições é de forte
crescimento económico, por um lado, e de grandes revoltas por outro.
O expoente da revolta foi o ano de 1909, que ficará na história da
Catalunha marcado pela chamada “Semana Trágica”, durante a qual
a maior parte das igrejas e dos edifícios do Estado foi destruída.
Foi de Barcelona que, em 1923, saiu o ditador Primo de Ri vera para
tomar o poder em Madrid. A exposição, que o general queria como
prova de força e recuperação da sua imagem pessoal, acabaria por
ficar associada ao canto do cisne do chefe do governo, obrigado a
demitir-se meses antes das portas dos pavilhões se fecharem.
A época que se seguiu à Primeira Guerra Mundial registou grandes
avanços no campo da ciência e da técnica. A confiança no progresso
era nessa altura ilimitada. A indústria florescia. Na região de
Barcelona, anteriormente já muito industrializada, emergia uma
classe de forte poder económico, mas sofrendo uma atrofia herdada
7
de relações tortuosas com o poder central. De facto, este sempre se
aproximara de Barcelona mais para a conter do que para proteger.
A realização de uma exposição internacional nesta data funcionou
para esta burguesia como um canto da sereia: impedida historica¬
mente de aspirar a tomar o rumo do interior, projectava agora
lançar-se nos mercados internacionais.
No meio da euforia e da projecção que Barcelona atingiu durante a
exposição, o crash da Bolsa nova-iorquina caiu como um balde de
água fria. A grande recessão que se abateria sobre os Estados Unidos
teria mais tarde consequências muito gravosas para a Europa. No
curto prazo, teve o efeito de dar razão a um receio ancestral comum
às sociedades fechadas: o de que a marcha acelerada do progresso e
da economia, afinal, sempre conduzia ao inferno.
Em termos políticos, o derrube de Primo de Rivera não significou
uma opção de regime. Aliás, as ditaduras, apoiadas no delírio na¬
cionalista, eram na época um seguro contra as incertezas do futuro.
Em Portugal, no ano da exposição, Salazar já desde há um ano
estava instalado na cadeira do poder, da qual só viria a cair em
1968. Na Itália, Mussolini já reinava em fascismo desde 1922 e se
o Terceiro Reich só seria proclamado quatro anos depois da exposi¬
ção fechar as suas portas e o regime autoritário de Dollfuss só
tomaria conta da Áustria dois anos depois do fecho da exposição,
imperavam já os regimes autoritários de Pilsudski na Polónia desde
1926, de Kemal na Turquia desde 1923 e de Nagybanya na
Hungria desde 1920.
Em termos culturais e científicos, os anos 20 viviam a febre dos
movimentos modernistas, que chegaram a todas as áreas do saber e
do fazer em definitiva ruptura com o que o século XIX produzira.
Mas, apesar de conter um núcleo de arte moderna, a filosofia geral
da Exposição de 1929 contrariava e optava, à excepção de algumas
ilhas, por um conservadorismo exaltante a que, a nível arquitectóni-
co, se chamou novecentismo.
Todas as contradições da década — neste ano a Espanha atingira o
ponto máximo de afastamento dos consensos — tiveram na Exposição
Internacional de Barcelona o seu postal ilustrado. Os frágeis laços
que uniram a vertigem da técnica a modos de vida medieval, o
conflito entre o liberalismo e a necessidade de um Estado protector e
planeador, o grande crescimento económico e a multidão de novos
miseráveis desenraizados do campo, tudo parece agora surgir clara¬
mente nesta exposição, pensada para exaltar as realizações e a força
de um país afinal dividido.
8
1929 EM WALL STREET
01 ano de 1929 ficará na história do Ocidente como o ano do grande
abalo no capitalismo. 0 crash da Bolsa de Nova Iorque, com
repercussões gravíssimas e indeléveis na sociedade americana - a
Grande Depressão - e também na Europa, tem causas específicas
que são apontadas pelos analistas e que genericamente desembocam
na ideia de que o que correu mal deveu-se, não a uma perversão
intrínseca ao modelo capitalista, mas sim a uma série de perversões
adjacentes que foram envenenando a pureza do modelo.
0 mercado das acções americano vivera um período próspero duran¬
te os anos 20, com uma íínica excepção na especulação fundiária na
Florida. Esse episódio, no entanto, não chegou para assustar os
investidores e em meados da década as oscilações nas cotações de
Wall Street iam interessando a um público cada vez mais numeroso,
ansioso pelo rápido enriquecimento. As subidas das cotações na
Bolsa de Wall Street eram seguidas com a emoção que despertavam
as finais de basebol.
0 aumento constante e vertiginoso dos valores das acções fixou-se a
partir de 1927 e teve como impulsionador a General Motors. Os prin¬
cipais protagonistas da euforia que se desencadeou giram em torno
desta empresa: John J. Raskob, um dos directores da G.M. a quem se
devem as declarações mais optimistas sobre o aumento de cotações
esperado para a G.M.; William Crapo Durant, que fora afastado da
G.M. em 1920 e conseguira enriquecer graças à especulação bolsis¬
ta; irmãos Fisher, cuja fortuna derivava da venda das suas fábricas,
eram também discípulos da G.M.; o canadiano Arthur C. Cutten, que
enriqueceu graças aos cereais. Estes homens formavam o núcleo
duro impulsionador da dinâmica de Wall Street em 1927.
Em 12 de Junho de 1928 foram transaccionados mais de cinco
milhões de acções na Bolsa de Nova Iorque, o que constituiu a ultra¬
passagem de uma marca mítica. Esse valor viria a ser sucessivamen¬
te ultrapassado no segundo semestre do ano.
Estas “subidas ruidosas” das cotações, na expressão feliz de John
Kenneth Galbraith, começaram a parecer preocupantes a alguns ana¬
listas mas estes eram encarados, no meio da euforia geral, como
velhos do Restelo.
São os indicadores de quebra na economia americana, como a
quebra dos índices de produção, que lançam as sementes do descré¬
dito. A 24 de Outubro de 1929 treze milhões de títulos foram postos
à venda numa manhã na Bolsa de Wall Street. Caíam assim
9
bruscamente as cotações, artificialmente mantidas inflacionadas pela
especulação desde há anos. Alguns bancos conseguiram ainda
reestabelecer bases mínimas comprando acções ao desbarato, mas
nos dias seguintes o pessimismo vencia.
A queda dos valores arruinou muitos especuladores. Mais do que
isso, como a especulação operava com base no crédito, encheu-os de
dívidas. Muitos bancos de pequena dimensão fecharam as portas e a
falta de crédito paralisou a produção e restringiu o consumo.
Rapidamente, a Europa foi arrastada pela crise, já que desde a guerra
eram os capitais americanos a sua principal fonte de financiamento.
Além do desastre económico que representou, o crash da Bolsa de
Nova Iorque teria repercussões na Europa ao nível de uma imagem
de progresso e de capitalismo florescente. A América, até aí, apare¬
cia como o arquétipo de uma sociedade pujante, com uma economia
vibrante. A Europa recuperava ainda o fôlego perdido durante o pri¬
meiro conflito mundial. À industrialização com base nas possibilida¬
des abertas pela utilização de energia eléctrica, anterior ao conflito,
juntava-se uma série de inventos, técnicas e descobertas científicas
que certificavam a ideia de um mundo em velocidade acelerada, de
um progresso deslizante. Nas sociedades mais fechadas, este surgia
também como ameaçador. Um arauto do fim dos tempos.
Esta dualidade está bem patente na Exposição Internacional de
Barcelona de 1929 cortada a meio, em termos temporais, pelo desai¬
re de Wall Street.
0 IMPARÁVELPROGRESSO
m Agosto de 1926, a Warner Bros projectou pela primeira vez um
filme sonoro. A experiência foi feita no Teatro Warner de Nova
Iorque e consistiu numa sincronização em disco chamada Vitaphone.
0 Vitaphone foi conseguido através de técnicas estudadas e desen¬
volvidas pela Electrical Research Products, filial da Western
Electric, vinculada à American Telegraph and Telephone, que
dependia do grupo Morgan. A banda sonora é puramente musical,
não há ainda vozes no cinema.
No mesmo ano, dois físicos japoneses inventam a antena que terá o
nome de um deles, Yagi, e que, pelas qualidades de recepção que
apresenta passa a ser usada para recepção de sinais de televisão.
Edwin Howard Armstrong propõe, em 1927, o princípio da modula¬
ção de frequência na transmissão de programas radiofónicos. Isto
E
10
significa que se passou a variar a amplitude de frequência da onda
portadora seguindo o ritmo da frequência da comunicação. As trans¬
missões em FM requerem a utilização de 150 kHz mas apresentam
uma qualidade sonora muito maior, uma vez que são eliminadas per¬
turbações e ruídos secundários.
Em 1929, a BBC de Londres inicia emissões televisivas experimen¬
tais. No mesmo ano, o relojoeiro norte-americano Warren Alvin
Marrisson inventa o relógio de quartzo, que permite medir o tempo
com grande precisão e reduzir o grau de desvio. O efeito é consegui¬
do utilizando cristais de quartzo, cujas oscilações são transformadas
numa corrente de frequência constante.
No ano anterior é comercializado e utilizado na industria um novo
metal duro criado pela empresa Krupp de Essen e feito a partir de
uma fusão de cromo, volfrâmio e titânio. O novo metal duro chama-se
widia e começa por ser utilizado como serra para ferramentas de
corte. Consegue-se assim atingir velocidades de corte inéditas.
Também em 1928, o bioquímico Albert Szent-Gyorgi consegue, a
partir de extractos vegetais e de glândulas adrenalínicas, uma
substância a que chama ácido ascórbico, que mais tarde demonstra
ser idêntico à vitamina C. Estuda também os compostos que parti¬
cipam na decomposição dos hidratos de carbono para dar lugar a
dióxido de carbono e água. Estes trabalhos viriam a possibilitar a
compreensão da totalidade do ciclo do ácido cítrico, ou de Krebs,
uma das actividades essenciais das células dos organismos vivos.
Szent-Gyorgi receberia em 1937 o Prémio Nobel da Medicina e da
Fisiologia.
Em 1927, o físico alemão Julius Lihenfeld deduz, a partir de bases
puramente teóricas, o funcionamento do transístor de efeito de
campo, estabelecendo assim uma base importante para o posterior
desenvolvimento da técnica dos semicondutores e o princípio cio
transístor.
O electroencefalograma é inventado em 1929 pelo psiquiatra alemão
Hans Berger e permite medir as correntes cerebrais.
A primeira locomotiva diesel de grandes dimensões é construída na
Alemanha em 1929 e destina-se aos Estados Unidos.
Também na Alemanha, em 1929, é construída - pela Miele - a pri¬
meira máquina de lavar pratos eléctrica para uso doméstico.
No campo da aviação, a década de 1920 assistiu a todo o tipo de
experiências e novidades. O maior hidroavião do mundo faz o seu
primeiro voo no dia 25 de Julho de 1929. O hidroavião chama-se
Do X e é fabricado pela fábrica alemã Dornier. Três meses depois do
li
A Exposição de Barcelona quis ser a montra
do progresso e da modernidade.
voo ianugural, o Do X bate o recorde de transporte aéreo de pessoas,
levando 158 passageiros e 11 tripulantes. Estas e outras inovações da
ciência e da técnica estiveram presentes na Exposição Internacional
de Barcelona de 1929.
Se a ideia inicial da Exposição de Barcelona estava centrada nas
indústrias eléctricas, os sucessivos adiamentos provocaram uma
banalização da utilização desta energia na indústria. De tal forma que
a ideia de modernidade subjacente à realização de exposições inter-
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nacionais já não se coadunava com o projecto de ter a energia eléc¬
trica como leitmotiv. No entanto, esta ideia não chegou a ser substi¬
tuída por outra mais “moderna”. O qne aconteceu é qne o tema da
exposição se tornou mais ambicioso e abrangente e foi aumentado o
sen âmbito geral. Apesar disso, as indústrias eléctricas viriam a
constituir um dos núcleos centrais da exposição e o Palácio das
Indústrias seria um dos mais importantes edifícios do recinto.
Curiosamente, depois do desaire da Bolsa de Nova Iorque este palá¬
cio seria também o mais saqueado - muitos industriais necessitaram
de reaver as importantes maquinarias que aí se expunham. 0 gover-
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no espanhol e a municipalidade preocuparam-se em ocupar os espa¬
ços vagos com outro tipo de peças. Assim, quando em Julho de 1930
a exposição foi finalmente encerrada, o núcleo industrial estava per¬
feitamente descaracterizado. Mais um sinal da época de charneira
que se vivia.
TENDÊNCIAS DO MODERNISMO
H s gerações seguintes instituíram o termo modernismo para des¬
crever os movimentos artísticos e culturais que surgiram no início
deste século e que se destacaram, na época, pela ruptura com o que
vinham sendo as tradições culturais herdadas do século XIX.
Na pintura, significava ultrapassar o impressionismo. Uma das for¬
mas de que nesta área se revestiu o modernismo foi o chamado pós-
-impressionismo, simbolizado por um núcleo de pintores franceses
ou sediados em Paris como Gauguin, Picasso dos primeiros anos,
Cézanne e Matisse, entre outros. O pós-impressionismo teve como
ponto alto, na altura, as exposições de 1910 e 1912 na Galeria
Grafton de Londres. Outra forma de modernimo foi o cubismo,
desenvolvido por Picasso e George Braque em Paris, entre 1907 e
1914. Destacando a natureza bidimensional da pintura, o cubismo
apresenta em simultâneo diferentes facetas do seu objecto. Nos anos
20, o cubismo iria influenciar muitos pintores bem como escultores e
arquitectos. O surrealismo e o dadaísmo são outras formas de que o
modernismo se reveste.
Na escultura, o modernismo traduziu-se basicamente na rejeição da
longa tradição greco-romana e na procura de novas formas.
A abertura das portas do inconsciente e do subconsciente, operada
primeiro por Freud e depois continuada por Jung, mostrou novos
modos de percepção da realidade. Como tal, influenciou a produção
artística e também literária. Os seus efeitos são visíveis sobretudo na
poesia, que se liberta de espartilhos de forma. Os conceitos de id,
ego e superego, regressão, identificação e sublimação alteram de
forma fundamental a percepção quotidiana do início do século.
Um dos campos onde o modernismo deixou mais marcas foi na arqui-
tectura. A pompa e o eclectismo deram lugar à pureza de linhas e à
funcionalidade. A escola de Arte e Design fundada em Veimar em
1919, Bauhaus, é um dos expoentes do modernimo na arquitectura.
Dirigida por Walter Gropius, mudou-se para Dessau até ser encerra¬
da pelos nazis em 1933. O manifesto da sua fundação apelava para a
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Os edifícios construídos para a Exposição reflectiam as tendências arquitectónicas
mais arrojadas da época.
unidade das artes criativas sob a batuta da arquitectura. Esta basea¬
va-se na consciência da natureza dos materiais e nas suas relações
conceptuais, produzindo linhas geométricas e puras que influencia¬
ram decisivamente, não só a arquitectura, como o design industrial
dos anos 20.
Outra escola de arquitectura de realce no modernismo é a do suíço
Le Corbusier — Charles-Édouard Jeanneret. Expoente do ferro con¬
creto, o trabalho de Le Corbusier é bastante influenciado pelo cubis¬
mo num sentido brutal e maciço. Devem-se-lhe as Unités
d’Habitations de Marselha e de Chandigar, capital do Penjabe.
Apesar da enorme influência da sua obra, alguns dos trabalhos que
deixou ao nível de cidades planeadas revelaram-se desastrosos, tal
como os de Shef field, em Inglaterra, e tiveram que ser demolidos.
Em 1927, o arquitecto alemão Ludwig Mies van der Robe atinge
grande notoriedade com desenhos para vivendas do bairro residen¬
cial de Weissenhof, em Estugarda. Van der Robe é um autodidacta
que surpreende pela perspectiva tridimensional das casas que pro-
jecta e nas quais utiliza betão armado e vidro, conseguindo um efeito
de leveza. Mais tarde, a sua arte vai ser depurada no sentido do
estruturalismo. Na exposição do bairro residencial de Estugarda, que
o projectou internacionalmente, participaram os maiores arquitectos
da época, enquadrados no modernismo: Le Corbusier, Walter
Gropius, Peter Behrens, Hans Poelzig, Jacobus Johannes, Pieter
Oud, Hans Scroun e Max Taut.
Muitas das realizações do modernismo foram durante muito tempo
rejeitadas pelos gostos da classe média da época, para quem o termo
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“arte moderna” era pejorativo. A Exposição de Barcelona, ao con¬
trário do que poderia esperar-se, não favoreceu as correntes moder¬
nistas ao nível da arquitectura. 0 único dos artistas citados que
esteve representado foi Ludwig Mies van der Rohe, autor do pavilhão
alemão. A Espanha da época albergava alguns dos protagonistas de
maior alcance de diversas correntes modernistas, mas o que acabou
por vingar na exposição foi um conservadorismo repescado. Para
desfasamento da Exposição Internacional de Barcelona em relação
às correntes inovadoras suas contemporâneas concorreu, sobretudo,
a conjuntura de política interna.
BARCELONA NO INTERLÚDIO MONÁRQUICO
epois de tantos adiamentos da Exposição de Barcelona, a
Espanha de 1929 acabaria por ter duas exposições simultâneas.
A de Sevilha e a de Barcelona. Esta duplicação é atribuída ao
general Primo de Rivera, que assim esperava acicatar os ânimos dos
capitalistas de Barcelona, que exigiam ao governo central uma maior
participação financeira nas pesadas despesas da sua Exposição
Internacional.
Don Miguel Primo de Rivera e Orbaneja demonstrou conhecer bem o
carácter dos homens ricos de Barcelona. Fora de lá que partira em
Setembro de 1923, como capitão-geral da Catalunha, para tomar
Madrid. Seis anos depois a ditadura do general era já um fardo pesa¬
do para o país e as convulsões nas universidades, nas regiões autono¬
mistas e em alguns sectores do exército conspiravam contra ele.
Em 14 de Abril de 1929, António Ferro publicava no Diário de
Noticias uma entrevista feita em Madrid a Primo de Rivera. E des¬
creve o ambiente até chegar ao ditador: “Antes de chegar a Madrid,
através da Galiza, através de Leon, através de Castela, eu senti, de
facto, uma atmosfera carregada, soturna, inflamada de boatos, ouvi o
tinir das espadas desembainhadas, a ameaça espectral do «Quem
vem lá...» Em Madrid, dizia-me essa atmosfera, não se podia falar,
não se podia sorrir, não se podia cruzar uma rua, não se podia dar um
passo sem um passo vigilante no seu encalce... Madrid, porém, rece¬
beu à gargalhada o meu perfil desconfiado, a minha cautelosa más¬
cara. Cheguei num dia claro, num dia sem sombras, sem
mal-entendidos. Madrid estava na rua, como sempre.”
Ferro vai ao encontro do ditador, que caracteriza como um espanhol
da tertúlia, simpático e familiar, e passa a mensagem que este faz
d
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questão de endereçar a Portugal: “Sigo, de longe, atentamente, a
obra admirável do actual governo do seu país, a obra de fomento e a
obra financeira”, diz o general, enaltecendo o momento amistoso das
relações entre os dois países. António Ferro arrisca a pergunta difícil
sobre a preocupação que se vive em Portugal acerca da situação no
regime espanhol. Ri vera é orgulhoso na resposta: “Não lhe escondo
que há um sector do país, um sector insignificante, que se mostra
descontente com a minha obra, uma obra que seria falhada se agra¬
dasse a todos. Esse sector, porém, interessa-me, convém-me, porque
tem um papel a desempenhar. E a minoria indispensável para
demonstrar a força da maioria.”
A resposta quanto à possibilidade de se ter evitado os confrontos nas
universidades é lapidar: “Impossível! Tinha chegado o momento de
dar uma lição aos que duvidavam da força da ditadura, a essas cha¬
madas classes intelectuais que se julgam intangíveis, que pretendem
substituir-se ao governo. Estavam habituados a uma ditadura mole,
de panos quentes, a uma ditadura sorridente e generosa. Mas a ver¬
dade é que a ditadura é um processo cirúrgico de se salvar as nacio¬
nalidades enfermas, uma cicatrização forçada. Tenham paciência. Já
que assim o querem, hão-de senti-la. 0 que arde... cura.”
Um mês depois desta conversa era inaugurada a Exposição Ibero-
-Americana de Sevilha. Estiveram presentes vinte e dois países
ibero-americanos além de Portugal, Brasil e os Estados Unidos.
Coordenada pelo arquitecto Aníbal Gonzales, a mostra era composta
por zonas para acolher os países participantes e algumas salas temá¬
ticas, tais como a da história de Sevilha e história ibero-americana e
arquivo do duque de Veragua.
A Exposição Internacional de Barcelona seria inaugurada dez dias
depois da de Sevilha. Tanto numa como noutra receberam no primei¬
ro dia os reis de Espanha e o general Primo de Rivera. Na de
Barcelona participaram cerca de vinte países, excluídos à partida os
ibero-americanos representados em Sevilha.
Ambas as exposições pretendiam mostrar o importante desenvolvi¬
mento interno que a Espanha vinha a conseguir. A expressão oficial
do governo estabelecia os propósitos: “Das exposições há-de resultar
o auge comercial do dia de amanhã e uma corrente de turismo cons¬
tante e metódico de futuro.” 0 general Primo de Rivera, sobretudo,
investia no espectáculo que Espanha assim dava ao mundo para
tentar recuperar a sua imagem desgastada, alvo de críticas constan¬
tes na imprensa internacional. Este seria o esforço final do general,
que a 28 de Janeiro de 1930 apresentou a sua demissão e do seu
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governo a Afonso XIII. O seu afastamento seria também, mais uma
vez, o prenuncio de tempos difíceis para a monarquia espanhola,
cujo segundo ciclo tinha já morte anunciada. Mas para se entender
este momento que a Espanha vivia é imprescindível recuar na
História e assistir à chegada ao trono do pai de Afonso XIII.
Quando Afonso XII se tornou rei, a monarquia em Espanha conhe¬
ceu um entusiasmo que desde há cerca de um século não sentia. Até
mesmo a Catalunha foi esfuziante e, com a queda da capital dos
carlistas em 1876, a Espanha entrou num período de paz. Esta paz
interna seria consolidada dois anos mais tarde na maior frente exter¬
na espanhola: Cuba. Tornava-se nessa época evidente que o separa¬
tismo cubano não poderia ser esmagado pela via militar, e a opção
política foi a de acalmar os ânimos dos Cubanos com a promessa
de uma maior autonomia.
Republicanos e liberais espanhóis reviram-se na Constituição de
1876, deliberadamente conciliatória em termos políticos e religiosos.
Nela estava contemplada a liberdade de credo e uma maior tolerân¬
cia religiosa. As cortes, que passaram a ter um carácter misto, po¬
diam ser dissolvidas apenas pelo rei e a sua dissolução teria que ser
seguida de constituição de novas cortes no prazo máximo de três
meses. Esta Constituição, que reforçava o poder do governo central —
para desespero dos Bascos — esteve em vigor até ao segundo colapso
da monarquia, em 1931.
Durante vinte anos o líder conservador e o líder liberal - Cánovas e
Sagasta - alternaram no poder de forma pacífica.
Em termos económicos, a situação do país mantinha-se no entanto
preocupante. Não só a guerra civil e a guerra de Cuba tinham depau¬
perado o Orçamento de Estado como a colecta de impostos, em cer¬
tos anos, não se revelava suficiente para, sequer, pagar os custos da
sua recolha. A classe mais afectada pelos impostos foi a camponesa,
que iniciou grandes movimentos migratórios para a América e
África. Mas foi nas universidades que se gerou o maior pólo de
inquietação, pretendendo afirmar uma maior independência em rela¬
ção à Coroa e à Igreja. Uma discussão que se estendeu às duas maio¬
res forças políticas.
Ao longo destes anos, Afonso XII foi polémico em duas ocasiões:
quando em 1883 visitou a Alemanha, esfriando assim as relações da
Espanha com a França e, dois anos depois, quando interveio contra o
seu governo na questão da liberdade de comércio e do proteccionis-
mo, colocando-se do lado da Catalunha, que pretendia um mercado
protegido para os seus produtos industriais.
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Quando o rei morreu, com vinte e sete anos, o problema da sua
sucessão foi crucial para o regime durante seis meses. E que o rei
apenas tivera filhas do seu casamento com a rainha Maria Cristina
da Áustria, mas a rainha viúva estava grávida e, meio ano depois, em
1886, nasceu Afonso XIII, nascido rei.
A rainha foi uma regente sóbria e ponderada até Afonso XIII ter
idade para ocupar o trono. Começou por convidar Sagasta para for¬
mar governo. Este reafirmou o sistema sufragista e em 1890 estabe¬
leceu o princípio do sufrágio universal a partir dos vinte e quatro
anos. Mas uma das reformas que Sagasta não teve força para impor
foi a do afastamento dos militares da esfera política. O exército fora
responsável pela instauração da república e pelo regresso à monar¬
quia. A sua penetração na área política era inalienável. Um caso
exemplar é o da exigência feita pelos generais de julgamento em tri¬
bunal marcial nos casos de litígio entre o exército e a imprensa.
Em 1890, Cánovas substituiu Sagasta e levou a efeito as primeiras
eleições sol) o princípio sufragista que o seu adversário político esta¬
belecera. Dois anos depois, enquanto decorriam as celebrações dos
quatrocentos anos da Descoberta da América por Colombo, dá-se em
Espanha a primeira greve de mineiros em Bilbau, de bandeira socia¬
lista, e o primeiro atentado bombista em Barcelona.
Barcelona vinha a tornar-se o principal centro espanhol do anarquis¬
mo. As ideias de Bakunine propangandeavam-se fertilmente no
terreno dos grandes latifúndios agrários e Barcelona começara a ser
desde há muito a cidade de refúgio para os camponeses esfomeados
da Catalunha, sobretudo os de Múrcia depois das grandes cheias de
1879. Os ideais anarquistas foram transportados por esta mole huma¬
na que começou a ocupar a cidade e aí proliferaram no meio indus¬
trial. Buscavam a promoção da liberdade individual e catalisavam a
ancestral rebeldia para com o poder de Madrid. A partir de 1888, o
anarquismo em Barcelona juntou as suas forças às da Confederação
Nacional do Trabalho, o sindicato mais forte da cidade. Acentuou-se
aqui o fosso profundo que durante meio século iria dividir os traba¬
lhadores espanhóis em dois campos opostos: Catalunha e o anarco-
-sindicalismo; Madrid e Castela e a aposta nas soluções nacionais.
Declarada a bancarrota do Estado por Cánovas, Sagasta tentou pela
primeira vez aprovar um orçamento realista, com um forte aumento
na carga tributária, mas a reacção foi tão violenta que ele acabou por
desistir. No último mandato de Cánovas reacende-se a guerra de
Cuba, desta feita com proporções dramáticas. Em 1897, Cánovas é
assassinado em consequência da dureza da sua política para com os
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anarquistas de Barcelona e Sagasta finalmente concede autonomia a
Cuba e Porto Rico. Esta concessão, para a atitude impaciente que os
Estados Unidos já tinham revelado quanto à solução para Cuba, veio
tarde de mais: a explosão de um cruzeiro americano em Havana foi o
pretexto para um ataque às ilhas Filipinas e para um conflito nas
Caraíbas, que só se resolveria com a tutela temporária dos Estados
Unidos sobre Porto Rico e as Filipinas.
0 jovem Afonso XIII jurou observar a Constituição em Agosto de
1902, quando contava apenas dezasseis anos. O início do seu reina¬
do coincidiu com a emergência de novas forças políticas não repre¬
sentadas pelos dois partidos que até aí tinham assegurado a
continuidade da governação: socialismo e catalanismo transferiram a
luta política para as ruas. O rei teve a prova disso no próprio dia do
seu casamento com a princesa inglesa Vitória Eugênia, em 1906,
altura em que se deu uma tentativa de regicídio.
Eduardo Mendonza, em A Cidade dos Prodígios , ficciona a inauguração
da Exposição de Barcelona pelo rei, e relembra as marcas desse atenta¬
do na memória de Afonso XIII: “Por mais que as autoridades locais
lhe prodigalizassem lisonjas, que os homens importantes da cidade
se desdobrassem em cachorrices e embora estivesse decretado que a
ocasião fosse festiva, Sua Majestade D. Afonso XIII resistira a pôr de
lado o seu ar taciturno. Instalado no Palácio de Pedralbes, recordava
vivamente aquele acontecimento terrível sucedido vinte e três anos
atrás. Era nessa ocasião muito jovem e acabava de contrair matrimó¬
nio com a princesa Vitória Eugênia de Battenberg. Apesar da chuva
miudinha, a multidão aglomerava-se nas ruas de Madrid para ver
passar o cortejo; o augusto par tinha saído da Igreja de S. Jerónimo,
onde se realizara a cerimónia nupcial, e dirigia-se agora ao Palácio
de Oriente na carruagem real. Ao passar pela Calle Mayor lançaram
uma bomba de um andar, a qual caiu à frente da carruagem e explo¬
diu imediatamente. Sabendo-se ileso, ele voltou-se para a mulher.
Estás bem?, perguntou-lhe. O vestido da noiva ficara tingido de ver¬
melho, salpicado do sangue dos espectadores e dos soldados da
escolta. A princesa Vitória Eugênia moveu a cabeça com serenidade.
Yes, disse simplesmente. Tinham morrido entre vinte a trinta pessoas
em consequência do atentado. Ao chegar ao palácio os monarcas cor¬
reram a mudar de roupa. Afonso XIII encontrou um dedo entre as
dobi ’as da capa. (...) Desde então Afonso XIII considerava os
Catalães gente hostil, de conduta arrebatada e imprevisível.”
Apesar da desistência imperial de 1898, a Espanha adquire a partir
de 1904 a responsabilidade sobre Marrocos, explicitada no Acordo
20
Franco-Espanhol de 1912. A necessidade de pacificara zona não era
no entanto bem acolhida na frente interna. De tal forma que em
1909, quando Melilla sofreu um ataque violento, o reforço às tropas
espanholas no local feito a partir de Barcelona originou um levanta¬
mento generalizado, uma greve geral e teve como consequência uma
série de mortos. Como represália, foram levadas a cabo algumas exe¬
cuções, entre as quais a do doutrinador anarquista Francisco Ferrer.
O movimento de opinião que se levantou por toda a Europa foi deci¬
sivo para o líder conservador no poder, Maura, que é forçado a sair.
A Semana Trágica, como ficou conhecida, exacerbou os ânimos ten¬
sos entre a Catalunha e Madrid. O regionalismo catalão estava já
representado nas duas casas do Parlamento desde 1901 e ia sendo
reforçado pela promulgação de algumas leis manifestamente hostis à
intervenção catalã na esfera da defesa. E nessas circunstâncias que
se forma uma frente única regionalista, a Solidaritat Catalana.
Inesperadamente, consegue uma vitória importante: a criação, em
1914, da Mancomunitat, uma federação das quatro províncias catalãs
investida de alguns poderes e prerrogativas até aí do domínio cen¬
tral, tais como educação, comunicações e serviços sociais.
Apesar de algumas concessões do governo central e da Coroa à opinião
pública e aos movimentos regionalistas, a Igreja permaneceu irredutí¬
vel durante todo este tempo: senhora do monopólio da educação e
fechada à admissão da dissidência religiosa. As tentativas de negocia¬
ção política com o Vaticano nesta fase nunca foram bem sucedidas e os
sentimentos de contestação e de anticlericalismo expandiram-se.
A eclosão da Primeira Guerra Mundial criou uma nova divisão no
território espanhol, para a qual contudo foi encontrada uma solução
sensata, a da neutralidade. Enquanto Exército, Igreja e conservado¬
res pendiam para o lado alemão, opinião pública, liberais e regiona¬
lismos basco e catalão simpatizavam com a causa aliada. O período
de guerra favoreceu um novo surto migratório das zonas de Múrcia e
Almeria para Barcelona.
As acções dos anarco-sindicalistas e dos socialistas chegaram a con¬
vergir de forma inédita. Um indicador da instabilidade política em
Espanha é a sucessão de governos - quatro durante o ano de 1917 -
e o surgimento de juntas de defesa militares, expoente do
corporativismo nas Forças Armadas de Espanha, que intervinham
cada vez que pensavam estar ameaçado o papel dos militares. As
tentativas de conter os movimentos anarco-sindicalistas e a sua esca¬
lada de violência foram debaldados pelo aumento das acções terro¬
ristas e em 1921 o primeiro-ministro é assassinado.
22
Nesse mesmo ano o Exército espanhol sofre uma séria derrota em
Marrocos: sob as ordens de Abd El-Krim uma força de vinte mil
espanhóis é esmagada e empurrada para o mar. No ano seguinte,
surge na Catalunha um movimento verdadeiramente separatista, o
Estat Català, cuja ala esquerda se alia aos separatistas bascos e
galegos.
A 13 de Setembro de 1923, o capitão-geral de Barcelona, general
Primo de Rivera, toma o poder em Madrid, com o apoio do rei, e
suprime as liberdades constitucionais e as cortes.
0 novo regime ditatorial começou por granjear as boas graças da opi¬
nião pública, interessada na reposição da ordem. Duas conquistas
garantiam bons auspícios ao governo de Primo de Rivera: a aliança
com os Franceses — e consequente rendição de Abd El-Krim em
1926, permitindo o início da pacificação de Marrocos —, e um orça¬
mento equilibrado, sem recurso a empréstimos externos.
Contra a ditadura reverteu a abolição dos partidos, que passaram a
agir na clandestinidade, e o antagonismo da Catalunha devido ao
progressivo movimento de centralização operado. Em 1925, Primo de
Rivera abole a Mancomunitat, no ano seguinte forma o seu partido, a
União Patriótica, e no outro constitui a Assembleia Nacional. A sua
política ferreamente clerical levantou contra ele os intelectuais e as
universidades e finalmente o impacto do crash da Bolsa da 1929
fê-lo perder o apoio do exército.
A política económica de Primo de Rivera assentava no proteccionis-
nio e no grande desenvolvimento das obras públicas. Apoiando-se
numa boa con juntura exterior que permitia a exportação de matérias-
-primas e produtos agrícolas, o governo conseguiu ir insuflando
dinheiro no circuito económico, apesar da dívida pública continuar a
ser colossal. A sobrevalorização artificial da peseta, por razões de
prestígio, provocou uma forte fuga de capitais e acabou por criar
crescentes dificuldades na venda de produtos ao exterior.
Durante o ano de 1929 cresceu a fúria dos universitários contra a
ditadura. As desordens ocorridas em Madrid começam a repercutir-
-se em Barcelona a partir de 20 de Abril. Por detrás dos tumultos
estava a organização estudantil, Federação Universitária Espanhola
(FUE), com reclamações de carácter universitário mas também ideo¬
lógico, fortalecida por algumas cedências pontuais do governo nas
medidas educativas.
No final do ano de 1929, o general Primo de Rivera expõe aos seus
colaboradores o que pensa ser uma solução política: a designação
por Afonso XIII de um civil de direita que diri ja um governo de tran-
23
O general Primo de Rivera, e parte do seu governo, visitam a Exposição.
O ditador, pouco tempo depois, exila-se em Paris.
sição. A Assembleia deveria ainda funcionar até Setembro de 1930,
altura em que seria eleita uma nova. No entanto, o rei, que jogava em
frentes dúbias com o exército, considera a ditadura um perigo para a
disciplina militar e mostra vontade de voltar ao terreno institucional.
O general Primo de Rivera revela, depois de uma reunião com o rei
no dia 31 de Dezembro de 1929, que o seu objectivo principal é ape¬
nas o de retirar-se condignamente. A 21 de Janeiro do ano seguinte
faz um último apelo aos generais para que estes declarem que toma¬
ram o poder por proclamação dos militares, mas estes reafirmam
apenas a sua obediência ao rei. Em 28 de Janeiro de 1930, o general
Primo de Rivera, marquês de Stella, e todo o seu governo apresentam
a demissão. Nesse mesmo mês, enquanlo ainda decorre a Exposição
Internacional d e Barcelona, Primo de Rivera exila-se em Paris.
A monarquia em Espanha não iria durar muito mais: Afonso XIII não
consegue reunir novas cortes no prazo constitucional e os seus poble-
mas com a governação continuaram alé às eleições de 1931, quando,
embora o voto monárquico fosse superior no meio rural, as cidades
votaram maioritariamente republicano. Sem abdicar, o rei exilou-se
também em Paris.
Esles anos de 1929 e 1930 assistem ao surgimento embrionário de
alguns movimentos de carácter social e cultural, que terão importân¬
cia mais tarde. Por exemplo, a crescente participação cias mulheres
na esfera política e a sua entrada progressiva na educação superior.
E o caso da nomeação em Março de 1928 de três mulheres para con-
24
selheiras da Câmara Municipal de Sevilha. Em 1930, a indústria têx¬
til de Barcelona conta com mais trabalhadoras do que trabalhadores,
vinte por cento das quais têm entre doze e dezanove anos. Quanto à
educação, enquanto em 1900 havia apenas uma estudante universi¬
tária, trinta anos depois esse número subiu para 1681.
A Opus Dei é criada em Outubro de 1928 pelo sacerdote aragonês
José Maria Escrivá de Balaguer. Pretendia recuperar para o cristia¬
nismo os jovens universitários espanhóis. O grupo que acompanha
Monsenhor Escrivá é composto por doze jovens, quatro dos quais
serão mais tarde ordenados sacerdotes e um deles, Álvaro dei
Portillo, será o sucessor do presidente da obra depois da sua morte.
No entanto, até 1939, a Opus Dei irá passar despercebida.
O mês da criação da Opus Dei é também o de estreia de Um Cão
Andaluz , um filme de Bufíuel que fora feito em colaboração com
Salvador Dali e que marca o surrealismo espanhol. Bufíuel e Dali
formavam, com Federico Garcia Lorca, um núcleo duro dentro da
Resistência de Estudantes de Madrid, sendo este último bastante cri¬
ticado por, definitivamente, não se enquadrar no surrealismo. A assi¬
natura de Bufíuel e Dali não voltará a surgir associada, depois da
zanga que os irá afastar para o resto da vida e que será fonte de polé¬
mica pública.
Os movimentos vanguardistas espanhóis não tiveram expressão na
Exposição Internacional de Barcelona. Como todas as manifestações
culturais em regimes de ditadura, as opções estéticas of iciais passa¬
vam pelo conservadorismo. Numa época em que a criatividade artís¬
tica se manifestava pela oposição ao tradicionalismo, em ruptura com
o passado, a opção dos regimes valorizava um modelo estático de
sociedade. Que se reflectia em opções estéticas que preferiam a tra¬
dição, cultivando uma mística de valorização do passado histórico e
de permanência temporal.
A CIDADE DA EXPOSIÇÃO
H or decreto de Isabel II, em 1833 Barcelona tornou-se uma das
quatro províncias espanholas que formam a Catalunha. No final
dos anos 20 deste século era a província espanhola de maior densida¬
de populacional e o maior entreposto comercial e industrial do país.
Barcelona constituíra uma muralha defensiva face às investidas dos
muçulmanos, que chegaram a conquistá-la, tendo sido expulsos por
Carlos Magno. Passou nessa altura a ser condado mas, por casamento
25
de Fernando e Isabel, quando Castela e Aragão se uniram, foi inte¬
grada em Espanha.
Luís XIV declarou-a república independente sob o protectorado dos
Bourbons, mas esse estatuto não foi duradouro. Napoleão ocupou-a
por duas vezes, em 1808 e em 1813, e há quem atribua à influência
da Revolução Francesa e ao espírito liberalista a tradição barcelo-
nense de adesão e simpatia pelas causas anarquistas e socialistas.
O município de Barcelona ocupa um espaço de 7500 hectares, em
1930 dividido em dez distritos, por sua vez subdivididos em bairros.
0 núcleo central da cidade de Barcelona nesta época é o monte
Taber, encimado pela Catedral, e o maciço de Montjuic, resgatado ao
mar desde a pré-história. Ao lado estende-se uma grande planície,
cortada pela foz do rio Llobregat que forma um delta com a foz do rio
Bésos.
Cidade marítima rodeada de montanhas, Barcelona tem um clima
ameno, com uma média de 16 graus centígrados anuais e uma ampli¬
tude que vai de zero graus no Inverno (mínimo), a 32 graus centígra¬
dos no Verão (máximo). As diferenças de temperatura entre o dia e a
noite também não são muito pronunciadas.
No início do século o crescimento populacional de Barcelona foi o
mais acentuado de todas as populações espanholas: enquanto em
1901 tinha 562 mil habitantes, em 31 de Dezembro de 1928 a popu¬
lação estava estimada em cerca de 841 mil habitantes.
Durante muitos séculos, até quase ao final do XIX, as muralhas divi¬
diam muito claramente a cidade dos baldios das cercanias até ao
limite em que a vida dentro de muros se tornou insuportável.
Barcelona chegou a ter uma densidade populacional de 700 habitan¬
tes por hectare sendo a densidade, na mesma época, em Londres, de
128 habitantes por hectare, por exemplo.
Esta concentração populacional, grandemente aumentada quando
começaram as obras para a primeira exposição internacional de
Barcelona, que atraíram pessoas de toda a província, conduziu a
situações graves como o rápido alastrar de qualquer doença até se
tornar uma epidemia mortal, a ausência total de água potável por
longos períodos, a acumulação de famílias em espaços exíguos.
Apesar de há muito se ter tornado evidente para os diversos alcaides
da cidade que a solução só poderia passar por um alargamento para
fora dos muros, esta decisão demorou a ser posta em prática devido à
necessidade de um plano de desenvolvimento urbano. Chamou-se,
finalmente, Plano Cerdá, e veio directo de Madrid com carácter impo-
sitório. A zona desenvolvida a partir de 1859 no plano é ainda hoje
26
conhecida por Ensanche e consiste num traçado de quadrícula que a
especulação de terrenos e imobiliária viriam a tornar diferenciado.
De facto, consoante a época a que remonta a venda de terrenos e a
construção, o Ensanche alberga edifícios e zonas completamente dis¬
tintas: habitação de luxo para a classe alta seguida de zonas
construídas com materiais baratos, espaço exíguo e poucas condições
de habitabilidade.
Em 1930, o dia-a-dia em Barcelona desenrola-se a partir da artéria
principal da parte antiga da cidade, ou seja, as Ramblas, e do Bairro
de Atarazanas, junto ao porto e que, por decreto real de 1927, sofreu
uma profunda reforma.
A parte antiga e moderna de Barcelona ligam-se na Praça da
Catalunha, arranjada para a exposição e que constituía uma das pra¬
ças mais impressionantes das cidades europeias. Três grandes vias
atravessam o nücleo urbano: o Paralelo e a Meridiana mantiveram as
suas características originais, enquanto a Avenida de Afonso XIII foi
Montjuic na altura da Exposição. Esta parte da cidade sofreu alterações urbanísticas
profundas para acolher o grande acontecimento.
melhorada e asfaltada. Esta avenida atravessa a cidade desde o
Palácio Real de Pedralbes até à Praça das Glórias Catalãs, projec-
tando-se na altura o seu prolongamento até à foz do rio Bésos.
Os bairros pobres nas imediações do Parque de Montjuic beneficia¬
ram da sua aproximação à exposição, tendo sido alvo de grandes
melhoramentos. Junto ao porto fica a zona balnear da época, o bairro
marítimo de Barceloneta, situado numa língua de terra triangular.
27
As praças que mais beneficiaram da exposição de Barcelona são as
da Catalunha e de Espanha. A primeira foi dotada de jardins e
alguns conjuntos escultóricos de artistas da época. Concentram-se na
Praça da Catalunha as estações de caminhos-de-ferro do Norte, da
Catalunha e de metropolitano. Quanto à Praça de Espanha, ganhou
com a exposição a construção de uma fonte monumental e polémica.
Barcelona conta com uma série de jardins e parques. Destacam-se os
do Parque da Cidadela — onde se realizou a primeira exposição inter¬
nacional de Barcelona - pela variedade e o Parque de Montjuic. Este
último, de solo pedregoso, foi transformado sol) a direcção do arqui-
tecto Forestier, que tentou miscigenar as tradições francesa e inglesa
de jardinagem.
A cidade também é profícua em edifícios religiosos, muitos deles
reformados depois dos motins de 1909 e outros construídos nessa
data. Um exemplo de destruição e reconstrução sucessivas é o antigo
Mosteiro de S. Pedro das Puellas. A sua primeira reconstrução data
de 1117, seguida de destruição pelo cerco francês a Barcelona em
1697 e nova reconstrução. Em 1714 foi palco para as lutas entre os
partidários do arquiduque de Áustria contra as tropas de Filipe V,
em 1909 foi incendiado durante a Semana Trágica.
Também a Igreja de San Pablo dei Campo foi vandalizada e os alta¬
res destruídos e posteriormente reconstruídos. Igualmente destruída
nos motins de 1909 foi a Igreja de Nossa Senhora dei Carmen,
reconstruída pelo arquitecto José Maria Pericas.
O edifício de Santa Madrona foi construído modernamente com ladri¬
lhos no arcos e sofreu pouco em 1909. A Capela de Marcus, români¬
ca, datada de 1166, ficou muito danificada em 1909 e a sua
reconstrução obedeceu ao estilo românico. San Andrés de Palomar,
reconstruído no seu estilo clássico de naves em forma de cruz, foi par¬
cialmente destruído na mesma data, tendo-se perdido uma biblioteca
de oito mil volumes, uma colecção de numismática e um museu.
Quanto ao templo de uma só nave de San Juan de Horta, datado do
século X, só sobrou o campanário, a partir do qual foi feita a recons¬
trução. Já o templo de San Juan de Gracia, de 1875, teve que ser
reconstruído de raiz uma vez que a sua destruição foi total. Santa
Maria dei Taulat é outro caso de reconstrução quase total. A Igreja
de Santa Maria de Provensals, que ficara terminada apenas em Julho
de 1909, sofreu no mesmo ano destruição parcial.
Recentes são as Igrejas de São José Oriol, em estilo bizantino, a góti¬
ca Sagrado Coração de Jesus e a moderna Igreja de San Ramón de
Collblanch.
28
Vista aérea do Parque de Montjuic durante a Exposição. A arquitectura dos edifícios
foi um dos aspectos mais atractivos para os visitantes.
0 incremento e restauro dos edifícios civis teve o seu início neste
século em 1909. Destaca-se neste campo o restauro das Casas
Consistoriais com a fachada gótica da Rua da Cidade, da galeria
gótica e da Loja do Trentenário. Por detrás das Casas Consistoriais
foi construído um edifício destinado a ser ocupado por oficinas muni¬
cipais que se une ao antigo Palácio do Conselho Municipal através
de um arco-ponte.
O Palácio de la Diputación foi liberto das construções postiças
que o ladeavam e aumentado com a Casa de los Canónigos.
A galeria gótica e a Capela de São Jorge são, entre as zonas res¬
tauradas, as de maior impacto. A acrescentar ao que foi restaurado
há zonas de construção moderna e outras que foram reformadas
para novas utilizações. Para tal, contribuíram as prestações dos
mais importantes pintores catalães e valencianos da época que
compõem parte da decoração com evocações dos momentos histó¬
ricos da cidade.
O Palácio Real de Pedralbes é uma sumptuosa construção iniciada
em 1924 que, com os seus jardins, ocupa uma vasta área do campo
de Sarriá. A escadaria de honra e o Salão do Trono são expoentes da
riqueza de utilização de materiais e de decoração deste palácio.
29
A Estação de França, situada na Avenida Marquês de Argentera, de
construção sóbria, ocupa só na sua fachada um comprimento de 125
metros, nas extremidades da qual se situam dois edifícios em prolonga¬
mento, formando um U em cujo interior se fez um parque para albergar
as carruagens dos via jantes. Existem ainda no edifício uma série de enge¬
nhos para facilitar a carga e descarga de mercadorias e acesso à estação
de correios. 0 pé-direito de cada sala do edifício mede 25 metros.
Os arquitectos Goday e Torres dirigiram a construção do edifício dos
Correios, a expensas do município de Barcelona. Terminado em
1928, o edifício entrou em funcionamento em Maio de 1929, por
alturas da inauguração da exposição.
No campo das edificações militares conta-se o edifício da Capitania-
-Geral, completamente reformado nos anos de 1928-29. Entre outras
novidades, foi feita uma nova fachada para o Passeio de Cólon inspi¬
rada na arquitectura espanhola do século XVII. A reconstrução geral
contém elementos que prestam homenagem a quatro momentos
importantes na história do edifício: a sua construção, em 1636, a
adaptação a Capitania em 1844, o golpe de Estado em 1923 e a res¬
tauração terminada ün 1929.
Um dos ex-líbris actuais de Barcelona é a Catedral da Sagrada
Família, um exemplo peculiar do que o modernismo veio permitir
em termos arquitectónicos. 0 seu autor, Antoni Gaudí i Cornet,
morreu três anos antes da inauguração da exposição de Barcelona,
deixando esta obra inacabada. Arquitecto criador de novas e origi¬
nais formas, engenheiro que esgotou as possibilidades técnicas ofe¬
recidas pelos materiais de construção que utilizava, Gaudí marcou
Barcelona mais do que qualquer dos edifícios construído ou restau¬
rado para a exposição, não só com a Sagrada Família mas também
com as construções do Parque Gíiell, cujas colunas parecem desa¬
fiar as leis da gravidade.
A indústria têxtil foi o grande motor do desenvolvimento de Barcelona
durante os anos 20 deste século, apoiada nas facilidades mercantis
oferecidas pelo seu porto. À semelhança do que aconteceu um pouco
por toda a Espanha, Barcelona também beneficiou nesta época do
grande programa de obras públicas promovido pelo general Primo de
Ri vera, que fez crescer a economia e diminuir o desemprego.
A forte industrialização, o êxodo do campo para a cidade, as difíceis
condições de vida da maior parte da população e a simpatia de que
gozavam os movimentos anarquistas na zona da Catalunha criaram
situações de grande instabilidade social, greves e revoltas durante
toda a década, que deram continuação aos movimentos do início do
30
século. As relações entre Barcelona e o governo central eram tam¬
bém tradicionalmente difíceis pelas tendências autonomistas da
região.
No final dos anos 20, a maior parte da força de trabalho nos têxteis é
já feminina. Nessa época, segundo dados da Câmara Municipal de
Barcelona, o quadro da população activa por sectores apresentava-se
da seguinte forma: cerca de 202 mil homens e 74 mil mulheres esta¬
vam em situação de trabalho activa nesses anos. O peso maior, nos
homens, era no comércio (53 mil) e nas mulheres nos têxteis (35 mil)
seguidas, no caso das mulheres, das confecções (11 mil) e do comér¬
cio (11 mil). No caso dos homens logo a seguir ao comércio situa-se a
metalurgia (33 mil), a construção (25 mil), e os serviços públicos (21
m
As fontes e os jogos de água eram atracções irresistíveis, sobretudo durante a noite,
quando as luzes multicolores eram acendidas.
mil). Seguem-se, com muito menor importância na estrutura do
emprego e por ordem decrescente, a indústria da madeira, os trans¬
portes, branqueio e tinte, gráficas e editoras, têxteis, químicas, ali¬
mentação, confecções e outras indústrias, cerâmicas e vidro, coiros e
peles, profissões artísticas e científicas, indústria de papel e cartão,
minas e pesca.
A lista de entidades bancárias existentes em 1929 em Barcelona dá
uma ideia da importância da cidade a nível financeiro. A oferta é
vasta e variada: uma sucursal do Banco de Espanha, Banco
31
Comercial da Cataluíla, Banco da Cataluíla, Sociedade Anónima
Arnús-Gary, Banco Anuis, Banco Hispânico Colonial, Banco de
Empréstimos e Descontos, Filhos de Majin Valls, Garriga-Nogués,
Soler e Torra Hermanos, Banco Tusquets, Banco Marsans, Crédito e
Docks de Barcelona, Banco Urquijo Catalão, Banco Central, Banco
de Viscaya, Banco de Bilbao, Banco Calamarte, Banco Hispano-
-Americano, Banco Espanhol cio Rio da Prata, The Royal Bank of
Canada, Anglo-Sonth American Bank, Banco Alemão Transatlântico,
Banco de Roma, Crédit Lyonnais, International Banking Corporation,
Société General de Banque são os mais importantes. Existiam ainda
como centros financeiros de monta a Bolsa, o Casino Mercantil e o
Banco Vitalício, de seguros.
O comércio da cidade conta com a existência de grandes bazares e
aos grandes grupos comerciais juntam-se importantes companhias de
transportes como é o caso das companhias de navegação
Transmediterrânea e Transoceânica, várias empresas de caminhos-
-de-ferro, a Companhia Catalã de Gás e Electricidade, a Companhia
Barcelonesa de Gás e Electricidade, a Companhia de Energia
Eléctrica da Catalunha, a Companhia de Materiais para os
Caminhos-de-Ferro e Construções, Fomento de Obras e Construções,
Construções e Pavimentos e Companhia Geral de Tabacos das
Filipinas.
O consórcio do Porto Franco de Barcelona é outra entidade com
grande importância na época. Tinha como finalidade a criação de
um porto livre. Devido ao movimento do porto, em 1927 transac-
cionaram-se em Barcelona 792 milhões de pesetas de importa¬
ções e 189 de exportações, num total de cerca de 980 milhões de
pesetas.
Situado inicialmente ao lado de Montjuic, onde aproveitava de
algumas condições naturais favoráveis, o porto de Barcelona foi
sendo deslocado pela construção de pontões, e já em 1929 era
um porto artificial que fazia ligação a diversos pontos do
Mediterrâneo, África, Oriente, Norte da Europa e Américas.
Segundo dados da Junta de Obras do Porto, o numero de barcos
entrados no porto de Barcelona em 1928 foi de 5293, dos quais
cerca de 3500 espanhóis.
Barcelona conta nesta época com um centro ferroviário de ligação
ao resto d a Espanha e ao estrangeiro, servido por quatro estações e
uma série de serviços ferroviários para os principais pontos de
Espanha e França, num total de cerca de 60 linhas. Além das
comunicações com o exterior, parte destas linhas serve ainda para
32
O início das obras para a Exposição. Esta parte da cidade, esquecida e degradada,
passou a ser um dos centros de convívio para a população de Barcelona.
transporte dentro da cidade e de comunicação com os seus arra¬
baldes. Nesse caso situa-se também o metropolitano, cpie em 1930
tinha duas vias: uma que começa na Praça de Lesseps e que se
subdivide em duas vias, uma com destino às Ramblas e outra até
ao porto; r uma segunda que parte da estação de caminhos-de-
-ferro de Sans, subdivide-se a meio do trajecto e volta a unir-se
desembocando na Estação do Norte. Carruagens de aluguer e um
parque de 50 mil automóveis completam os transportes da cidade
no ano de 1930.
Quanto às comunicações contava nesse ano, além do Palácio Central
do Correios, com diversas estações de correios e telégrafo, uma rede
automática de telefones urbanos, estações radiográficas e duas esta¬
ções de radiodifusão.
Por via aérea, Barcelona tem nesta época ligações diárias a Madrid,
Casablanca e França.
33
A PREPARAÇÃO
DA FESTA
—
H primeira exposição internacional ou universal decorreu em
Londres em 1851, e desde então a realização de exposições inter¬
nacionais alastrou pelo Ocidente como uma moda, favorecida pelo
progresso, boas conjunturas de desenvolvimento industrial e pela
revitalização dos nacionalismos a partir do início do século XX.
Barcelona teve uma primeira exposição em 1888, no Parque da
Cidadela, gratificante para os sentimentos regionalistas da
Catalunha.
Em 1913, os políticos e industriais de Barcelona uniram esforços na
vontade de promover uma exposição universal dedicada às indústrias
eléctricas, sob o título “Exposição das Industrias Eléctricas”, que
decorreria em 1917. 0 interesse do núcleo industrial de Barcelona,
um grupo financeiramente sólido e que procurava alargar a sua área
de actuação nos mercados internacionais, afectada pelos resultados
da guerra de Cuba e Filipinas, foi decisivo para o avanço dos traba¬
lhos. Na época, a indústria catalã sofria uma transformação pelo
aproveitamento energético de reservas de hulha branca para a indús¬
tria e as perspectivas optimistas não tinham reservas. Ao núcleo duro
de industriais e políticos juntou-se a burguesia catalã, unida ideolo¬
gicamente pelo programa da Liga Regionalista, que visava impor os
traços distintivos da cultura catalã.
A Câmara Municipal de Barcelona encabeçou a Junta Directiva da
Exposição na deslocação a Sevilha, em 1914 - local onde se encon¬
travam o rei e o chefe do governo — e conseguiu interessar o governo
espanhol, que anunciou uma subvenção de dez milhões de pesetas à
empresa e legislou o reconhecimento da futura exposição como tendo
um carácter de obra pública. Poucos dias depois deste acordo desen¬
cadeava-se a Primeira Guerra Mundial e a exposição ficou limitada
aos trabalhos de ordem interna, esperando o fim do conflito. Apesar
de a Espanha não ser beligerante, o estatuto de exposição interna¬
cional obrigava à participação activa de países estrangeiros, convida¬
dos por via diplomática, e foi necessário esperar que esses países
recuperassem da guerra.
A discussão quanto à localização do certame entreteve os ânimos
durante o compasso de espera. As alternativas mais apontadas eram
o Parque de Montjuic - que apesar de ter uma área vasta e estar pró¬
ximo da centro da cidade tinha como desvantagens ser íngreme, não
35
O interior do Palácio Nacional onde decorreu a cerimónia de inauguração
com a presença do rei.
ter água e ser necessário construir os acessos de raiz - e um vasto
terreno situado entre a Praça das Glórias Catalãs e o rio Bésos. Os
interesses económicos contaram para a decisão final: Montjuic.
Enquanto a exposição que se realizara de 1888 aproveitara os terre¬
nos da Cidadela, não urbanizados ainda por estarem sob jurisdição
militar, a de 1929 iria aproveitar os terrenos vagos pela proximidade
do Castelo de Montjuic. A fortaleza fora construída para defender a
cidade dos ataques do exlerior mas, devido à conjuntura política,
acabava por servir mais para a atacar ou controlar. Não tendo permi¬
tido o derrube do Castelo de Montjuic, o Ministério da Guerra cedeu
os terrenos que estavam sob a sua jurisdição. Estes, juntamente com
os terrenos que tiveram que ser expropriados, começaram a sofrer
trabalhos de ajardinamento e arborização. J. C. N. Forestier, conser¬
vador do Bosque de Bolonha em Paris, seria o autor dos projectos
de ajardinamento dos terrenos das duas exposições, tanto a de
Barcelona como a de Sevilha.
A nível de edificações, a obra arquitectónica escolhida como diapa¬
são da exposição de Barcelona foi o Palácio Nacional, situado no
centro da zona da mostra.
Sob o projecto de Josep Puig i Cadafalch, as obras planeadas desde
1914 e atrasadas por diversas dificuldades nas expropriações de ter¬
renos, ganharam velocidade no ano de 1917 data em que, sob a
direcção do arquitecto, se iniciaram as construções dos principais
palácios.
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Em 1923, a mudança no governo espanhol, com a chegada ao poder
do general Primo de Rivera, implicou uma recomposição dos mem¬
bros da organização da exposição. Em 1925 decidiu-se que a mesma
teria início em Maio de 1929 - coincidindo com a Ibero-Americana
de Sevilha, cujos países participantes a nível oficial se excluíam
automaticamente da de Barcelona. E os trabalhos preparatórios reco¬
meçaram no ano seguinte.
Em A Cidade dos Prodígios , Eduardo Mendonza descreve assim a
azáfama das obras da exposição: “A montanha de Montjuic foi encer¬
rada ao publico; os bosques foram cortados e as fontes encanadas ou
obstruídas com dinamite; fizeram-se ali taludes e lançaram-se os ali¬
cerces do que viriam a ser os palácios e os pavilhões. Como da vez
xPosicióN Internacional
Um dos cartazes oficiais da Exposição representando um dos sectores mais fortes
presentes no evento, a indústria têxtil.
anterior, os escolhos não se fizeram esperar: o deflagrar da Grande
Guerra, primeiro, e a reticência do governo de Madrid paralisaram
sempre as obras. (...) Foi preciso transcorrerem vinte anos para que a
política de obras publicas do general Primo de Rivera insuflasse
novo fôlego à ideia. Agora não só Montjuic como a cidade inteira
seria cenário dos seus projectos colossais: muitos edifícios foram
demolidos e o piso das ruas foi levantado para se estenderem as
linhas do metro. O aspecto de Barcelona recordava as trincheiras
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Montjuic iluminado pelos jogos de luzes concebidos
pelo engenheiro Carlos Buigas y Sans.
daquela Grande Guerra que tinha dado com a exposição em panta-
nas. Nessas obras e na da exposição trabalhavam muitos milhares de
operários, serventes e pedreiros vindos de toda a parte da península,
sobretudo do Sul. Chegavam em comboios a abarrotar à estação de
Francia, recentemente ampliada e renovada. Como sempre, a cidade
não tinha capacidade para absorver esta aluvião. (...) Era sobre esta
ossatura de sofrimento, depauperamento e rancor que Barcelona
erguia a exposição que viria a surpreender o mundo.”
Nesta altura a indústria eléctrica já deixara de ter o carácter de ino-
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vação anterior à guerra, pelo que a exposição passou a contemplar
uma temática mais vasta e híbrida chamando-se apenas Exposição
Internacional de Barcelona. No entanto, mesmo este nome acabaria
por não poder ser definitivo uma vez que o certame se prolongou
muito para além dos prazos estabelecidos para uma exposição inter¬
nacional: tendo sido aberta em 19 de Maio de 1929, foi só encerrada
em 15 de Julho do ano seguinte, passando a meio do acontecimento a
ter um carácter apenas nacional.
Ocupando uma superfície total de 116 hectares e uma superfície edi¬
ficada de 240 000 metros quadrados — não tendo em conta os edifí-
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cios menores nem os construídos pelos países com pavilhão próprio e
entidades particulares a exposição estruturou-se na base da classi¬
ficação geral e do seu duplo carácter nacional e internacional, per¬
mitindo que países estrangeiros concorressem, quer construindo
pavilhões independentes, quer apresentando as suas aportações nos
edifícios construídos pela própria exposição, quer com ambos os
meios de exibição.
Estiveram presentes com espaços próprios em edifícios da exposição
a Checoslováquia, Finlândia, Suíça, Polónia, Estados Unidos,
Inglaterra, Portugal, Holanda, Turquia, Egipto, Palestina, Pérsia,
índia, Bornéu, Ceilão, Malta e Afeganistão. Construíram pavilhões
próprios a Alemanha, Bélgica, Dinamarca, França, Hungria, Itália,
Noruega, Roménia, Suécia e Jugoslávia.
Segundo despacho aprovado em Conselho de Ministros, sob a presi¬
dência de Afonso XIII, o certame desenvolveu-se a partir de três
grande núcleos: a industria, os desportos e a arte de Espanha.
À volta dos grandes níícleos foram organizados uma série de iniciati¬
vas culturais, colóquios, exposições, seminários, congressos, etc. Fora
dos núcleos, o Estado espanhol empenhou-se em marcar presença
através do Pavilhão do Estado — dedicado aos serviços públicos —,
Pavilhão Real, das Diputaciones, da Cidade de Barcelona, etc.
Um dos aspectos de maior impacto da exposição foram as
iluminações concebidas por Carlos Buigas y Sans. A aposta do
autor foi no jogo de vastas superfícies iluminadas, em conjugação
com linhas de água luminosas e em contrastes de cores e forma¬
tos. A possibilidade de conjugar luzes e construções aquáticas,
bem como iluminações de edifícios e obras a partir de um posto
central, permitiu criar espectáculos variados e diversificar o
espectro das iluminações.
Para a iluminação geral foram instaladas ao longo da área da exposi¬
ção mais de 600 construções em vidro de grandes dimensões e moti¬
vos modernos, que projectavam uma luz difusa. A impressão dos
autores que estudaram a exposição é unânime: se o visitante poderia
facilmente esquecer o que era exposto nos diferentes pavilhões e
palácios, já dificilmente poderia olvidar o espectáculo das fontes
luminosas e dos efeitos variados de luz e cor.
Os jogos de água e de luzes não eram novidade em exposições inter¬
nacionais: eles já tinham sido feitos em 1851 em Londres, em 1893
em Chicago e em 1915 em S. Francisco, embora não tenham sido,
como em Barcelona, o principal ponto de atracção da exposição.
Neste caso, o trabalho de Carlos Buigas na área da engenharia dos
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O recinto da Exposição era pontuado por magníficos jogos de água e de luzes
que, tão espectacularmente, ilustravam a utilização da corrente eléctrica.
jogos de água e luzes funcionou como um embrulho moderno e sur¬
preendente, disfarçando uma arquitectura pouco criativa.
0 núcleo industrial da exposição compôs-se de onze pavilhões dedi¬
cados à agricultura, indústria, comércio e inovações cientificas apli¬
cadas à indústria. Ou seja, os palácios da Secção de Agricultura,
Arte Têxtil, Vestido, Indústrias Químicas, Electricidade e Força
Motriz, Artes Industriais e Decorativas, Palácio Afonso XIII ou das
Indústrias da Construção; Artes Gráficas, Projecções, Trabalho;
Comunicações e Transportes, Palácio Rainha Vitória Eugênia e
Material Desportivo.
O Núcleo das Artes cie Espanha desenvolve-se em dois edifícios, um
dos quais o Palácio Nacional, o outro da Arte Moderna. A estes dois
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palácios junta-se ainda o Pueblo Espanhol, permanentemente anima¬
do por festas populares, concursos, torneios, etc. Este Pueblo, uma
das estruturas que mais sucesso alcança, como se pode ver pela cró¬
nica exuberante de António Ferro, repesca uma ideia apresentada na
exposição de Paris de 1889.
O Nücleo dos Desportos tem como construção principal um estádio,
com campo de jogos e capacidade para 60 mil espectadores. A aten¬
ção dada aos desportos é característica da época: desde que a ideolo¬
gia fascista se difundira pela Europa os governos fomentavam a
prática do desporto e procuravam que houvesse uma assistência
maciça às competições desportivas. O modelo desta febre vai buscar
traços culturais do Império Romano: as vitórias desportivas passaram
a símbolos da grandeza de um povo.
Fora dos núcleos principais destaca-se o Pavilhão das Missões, ao
qual aderiram todas as missões espanholas do Extremo Oriente,
África e América, além de algumas missões estrangeiras. Destaca-se
também o Pavilhão da Cidade de Barcelona, erigido com a preocupa¬
ção de revelar aspectos históricos e quotidianos da cidade, o Pavilhão
do Estado Espanhol e o Pueblo Oriental, constituído por edifícios de
estilo oriental, representando sobretudo colónias francesas e inglesas
e que oferece ainda um grande bazar de produtos do Oriente.
Um teatro grego, talhado no fundo de uma antiga pedreira e com
capacidade para dois mil espectadores, uma piscina de natação e
campos diversos de jogos são espaços bastante concorridos da exposi¬
ção, bem como os numerosos restaurantes espalhados por toda a zona.
Para facilitar a circulação pelo recinto foram construídos uma escada
rolante, vários elevadores, uma pequena linha de caminho-de-ferro
que circula pelos pontos principais da exposição, uma linha de auto¬
carros e de carros.
A nível arquitectónico a exposição de Barcelona pôs em evidência a
crise que a arquitectura atravessava nesse período em Espanha.
A situação política que se vivia desde 1923 colocava os arquitectos
na posição de procurarem no passado as formas e linguagens que
lhes permitissem responder ao que lhes era pedido.
A arquitectura da exposição manifesta um historicismo que haveria
de ser qualificado de forma pejorativa como ecléctico, uma vez que
repousa sobre uma mistura de estilos. A maioria dos arquitectos esco¬
lhidos, provenientes da Escola de Arquitectura de Barcelona, optou
por um estilo monumentalista. Tanto a combinação de materiais num
mesmo edifício como a conjugação dos edifícios pretendia favorecer
um efeito teatral. Imperavam os modelos classizante e barroco, levan-
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do à sobrevivência de dois estilos diferentes: o novecent ista e o barro-
quista. O novecentismo é patente nas obras de Pelai Martinez e de
Ramon Reventós, qne mistura um classicismo mediterrânico ligado a
um estilo renascentista italiano. A excepção é o Teatro Grego, de esti¬
lo helénico, já o Palácio das Artes Gráficas e a Torre de acesso à
exposição são bons exemplo deste estilo, que não iria fazer escola. Por
seu turno, o Pavilhão da Cidade de Barcelona, de Josep Goday, iria
ser reproduzido nas construções escolares da Catalunha durante os
anos 30. A tendência barroquizante surge na maioria dos edifícios,
como referência constante aos modelos do século XVIII.
Tanto uma tendência como a outra, que marcaram a Escola das
Belas-Artes, procuraram demonstrar a grandeza de um país que,
apesar de não ter participado na Primeira Guerra Mundial, tinha com
ela sofrido reveses económicos, sociais e políticos.
E curioso observar que, mesmo os arquitectos que se situavam nas
correntes modernistas, nos seus projectos para a exposição puseram
de parte essa tendência e procuraram a tradição e a história. E o
caso de Josep Puig i Cadafalch, Luis Domànech i Montaner, que
fizeram projectos para a exposição de 1917, e Antoni Darder, autor
dos pavilhões de Arte Moderna, da Companhia de Tabacos das
Filipinas (no qual upluu pelo estiln déco) e do Pavilhão cio Estado
Espanhol. Enric Sagnier é a
O pavilhão da Companhia
de Tabacos, que reflectia
um gosto art déco,
representava as Filipinas.
excepção a esta regra: o
seu Palácio das Diputa-
ciones é tão ecléctico como
qualquer das suas ohrds
anteriores ou posteriores.
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indústria acabaram por revelar-se os edifícios mais interessantes do
ponto de vista arquitectónico, conjugando forma e funcionalidade e
seguindo duas opções vanguardistas: a arquitectura déco e a raciona-
lista. No primeiro caso integram-se algumas soluções arquitectónicas
dos pavilhões da França e da Companhia de Tabacos das Filipinas e
o Pavilhão dos Artistas Reunidos. O racionalismo surge no pavilhão
da Suécia e em toda a representação alemã. O pavilhão alemão, a
cargo do arquitecto Mies van der Rohe e L Reich, foi o mais impor¬
tante e inovador edifício de toda a exposição.
AS OPÇÕES PORTUGUESAS
H ortugal apostou modestamente na Exposição Internacional de
Barcelona. A sua representação, não oficial, saldou-se pela
presença cie algumas empresas que promoveram produtos indus¬
triais e de artesanato, com o apoio da Câmara de Comércio e do
Consulado Português em Barcelona. Esta última entidade haveria
de se queixar ao Ministério dos Negócios Estrangeiros português
da fraqueza da representação portuguesa e da oportunidade que se
perdia ao nível da promoção dos produtos nacionais: “Teria sido
de grande vantagem para os industriais portugueses o terem-se
apresentado nesta exposição em maior número e com os seus
melhores mostruários, visto ser esta a exposição mais visitada,
tanto pelos nacionais como pelos estrangeiros.” O remoque no
relatório do cônsul português em Barcelona refere-se à Exposição
Ibero-Americana de Sevilha, que decorria paralelamente e que,
essa sim, contou com uma representação oficial portuguesa de
pompa e circunstância.
De facto, alguns dias antes da inauguração do certame de Sevilha
partiu expressamente de Lisboa o paquete João Belo levando a bordo
97 pessoas, entre os quais os jornalistas João Pereira da Rosa,
Gustavo de Matos Sequeira, Abel Moutinho, padre Miguel de
Oliveira e Nogueira de Brito. O paquete dirigiu-se a Sevilha, onde
ficou ancorado durante uma semana. No dia da inauguração partiram
ainda três hidroaviões portugueses com destino à capital da
Andaluzia para abrilhantar a presença portuguesa, num voo que
durou cerca de três horas.
A 9 de Maio, data da inauguração da exposição de Sevilha, era divul¬
gada uma nota do seu comissário régio, D. José Cruz Conde, dedica¬
da a Portugal: “Portugal e Espanha, as duas nações irmãs, devem
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O pavilhão alemão, da autoria de Mies van der Rohe e L.Reich, é ainda hoje exemplo
do modernismo na arquitectura. Este edifício, assim como a cadeira Barcelona,
marcaram para sempre os cânones estéticos deste século.
sentir e realmente sentem, com igual intensidade, o alto e nobre sig¬
nificado espiritual do futuro certame ibero-americano que simulta¬
neamente renderá uma merecida homenagem ao magnífico, glorioso
e cultural esforço que os dois países realizaram na América e procu¬
rará, seguramente com êxito, criar uma maior inteligência e contacto
entre povos que por vínculos comuns de raça e de idioma podem e
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devem entender-se facilmente para cooperar reunidos na santa obra
de paz e progresso humano.”
0 ministro dos Negócios Estrangeiros português, comandante
Quintão Meireles, encabeçou a comitiva portuguesa na inauguração.
A cerimónia foi presidida pelos reis de Espanha e nela compareceu
também o general Primo de Rivera, bem como os nomes mais sonan¬
tes da nobreza espanhola. Tanto o paquete João Belo como os hidroa¬
viões portugueses chegaram durante a cerimónia inaugural e foram
saudados pela multidão.
O momento alto da presença portuguesa aconteceria no dia 11 de
Maio, data da inauguração oficial do pavilhão português, projectado
pelos irmãos Rebelo de Andrade e executado em 357 dias. Este
pavilhão funciona actualmente como consulado português em
Sevilha.
Para receber os reis nesta cerimónia estiveram presentes Quintão
Meireles, o embaixador de Portugal Melo Barreto, o comissário régio
da exposição, a oficialidade da divisão naval, elementos do pavilhão
e muitos portugueses que propositadamente se deslocaram a Sevilha.
O rei apresentou-se à cerimónia fardado de almirante e ostentando o
colar da Grã-Cruz da Torre e Espada. Com ele estavam a rainha
D. Vitória, as infantas, D. Maria da Paz, tia do rei, os infantes
D. Carlos e D. Afonso de Bourbon, o general Primo de Rivera e os
ministros do Trabalho, Fazenda, Graça e Justiça, Instrução e
Fomento.
Vale a pena transcrever a prosa do enviado especial do Diário de
Notícias : “E percorrido em primeiro lugar o salão da agricultura.
O infante D. Afonso de Bourbon atarda-se um pouco do grupo e fica
admirando e elogiando os panneaux de Armando Lucena.
Na Sala das Colónias, D. Afonso XIII marca atenções muito especiais
pelo stand da Companhia dos Diamantes de Angola. Detém-se demo¬
radamente em frente do mapa, em relevo, de Cabo Verde. Diante do
stand da Companhia dos Caminhos de Ferro de Benguela, o rei mara¬
vilha os portugueses que mais perto lhe ficam, falando da África
Ocidental Portuguesa e dos seus principais problemas, em pleno
conhecimento de causa. Olha também com interesse evidente o mapa
colonial português, ao qual faz comentários lisonjeiros. Toda a sala e a
maioria dos mostruários lhe merecem palavras de encómio.”
O rei visitará ainda a Sala do Comércio e Industria, destacando com
a sua atenção os tapetes de Beiriz, os aparelhos náuticos e os traba¬
lhos executados no Parque Aeronáutico de Alverca, os mármores, os
azulejos, os ferros forjados e o stand dos Vinhos do Porto. Uma fonte
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de mármore de Raul Lino, as duas cabeças de elefante encimadas
por um túnel percorrido por um comboio miniatura da Companhia de
Caminho de Ferro de Benguela e a reprodução em cristal das melho¬
res pedras preciosas extraídas pela Companhia de Diamantes de
Angola merecem igualmente a atenção da comitiva real.
No dia seguinte, o Diário de Notícias faz manchete com os comentá-
ros ouvidos: “Como ha sido hecho esto en tan poco tiempo? solo por
un milagro”, terá exclamado o rei de Espanha perante o pavilhão
português. “Una rara preciosidad”, terá retorquido a rainha. “La
paloma de la Exposición”, concluiria, no entender da imprensa, o
povo sevilhano.
Perante a descrição da presença portuguesa na Exposição de
Sevilha, não espanta o melindre do cônsul português na cidade cata¬
lã aquando da inauguração desta exposição: “A secção industrial
(portuguesa) está instalada no Palácio Meridional. O concurso de
Portugal foi organizado pelo Consulado de Portugal em Barcelona e
pela Câmara de Comércio Portuguesa em Barcelona, sendo de sentir
que o esforço feito por estas da entidades não tivesse sido secundado
mais eficazmente pela Industria e Comércio Portugueses, ainda que
tenham concorrido à Exposição 162 expositores, nas diferentes sec¬
ções, apresentando: pratas artísticas, cutelariá\ tecidos em geral, cal¬
çado de luxo, tapetes, artigos de malha, cortiças, conservas, artigos
de viagem, artes gráficas, porcelanas, quinquilharia, chapéus,
vinhos, licores, azeites, instrumentos de música, mármores, cerâmica
e vários outros artigos.
A parte artística está exposta no Palácio de Arte Moderna e está
composta por quadros e bronzes de artistas de renome tais como
Columbano, Carlos Reis, António Carneiro, João Vaz, Gameiro, etc.
Tanto as artes como a indústria portuguesa destacam-se pela sua per¬
feição”, resumia entristecidamente o cônsul Fernando Abecassis em
relatório enviado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros e ao
ministro do Comércio e Comunicações no dia 23 de Outubro de 1929.
A pobreza da presença portuguesa na exposição de Barcelona radica,
afinal, numa opção política mais profunda. E que enquanto a exposi¬
ção de Barcelona se virava de forma clara para a Europa e para o
mundo industrializado, já a de Sevilha contemplava uma opção mais
colonialista de África e das Américas. E a escolha portuguesa já
estava historicamente feita. Embora tardia, se se comparar com a de
outros países europeus com colónias.
Foi após a independência do Brasil, no regime liberal de D. Maria II,
que Portugal começou a dar mais importância às suas colónias afri-
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Outro aspecto da Exposição. Fontes, escadarias, avenidas tornavam o recinto
num lugar privilegiado de lazer e convívio.
canas de Angola e Moçambique. Em 1836 foi abolida a escravatura
em todas as colónias portuguesas e foram pela primeira vez nomea¬
dos governadores civis para os territórios ultramarinos. Nessa data, a
afirmação das fronteiras de Angola e Moçambique era ainda um pro¬
cesso em curso e só no final do século, com o crescente interesse de
outros países da Europa nos seus territórios ultramarinos — nomeada¬
mente a Bélgica e a França —, foi considerado necessário levar em
conta a defesa das colónias africanas.
Capelo, Ivens e Serpa Pinto são enviados em 1877 atravessar o conti¬
nente africano, numa iniciativa resultante das primeiras preocupa¬
ções hegemónicas do governo português em relação a África. Os
primeiros descem até ao Congo, Serpa Pinto chega a Victoria Falis,
Durban e Pretória.
A pretensão portuguesa de unir Angola a Moçambique e o despique
sobre o Congo são decididos na Conferência de Berlim de 1884-85.
Os critérios aqui definidos baseiam-se na ocupação efectiva e não
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nos direitos de descoberta — que Portugal evocava sobre o Norte do
Congo, bem como no Tratado Anglo-Português. África vai tornar-se o
elo mais fraco na cadeia da história dos mais velhos aliados, uma vez
que tanto a Inglaterra como Portugal têm pretensões territoriais e as
zonas de interesse se interceptam. A segunda expedição de Serpa
Pinto mostra claramente a vontade de unir, de Angola a
Moçambique, as duas costas, mas a Inglaterra reage com o ultimato
de 1890 e Portugal tem que ceder. Ficam, de qualquer forma, para
Portugal, as vastas áreas de Angola e Moçambique, que juntas
somam vinte vezes a dimensão de Portugal, Cabo Verde, Guiné,
índia, Macau e Timor.
A primeira semana do reinado de D. Carlos I é ensombrada pelo ulti¬
mato inglês e pela declaração da Republica no Brasil. Seguem-se tem¬
pos de intriga e de agravamento no estado crónico das finanças
portuguesas, até que em 1891 se dá o primeiro levantamento republi¬
cano no Porto. O resultado é a ilegalização do Partido Republicano e o
esmagar da revolta.
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Nos últimos anos da monarquia, o estado de bancarrota das finanças
públicas é de tal monta que, para equilibrar o orçamento, teriam que
ser suprimidos todos os serviços públicos, a marinha e a armada. No
início da última década um ministro competente, Ferreira Dias, con¬
segue mitigar o problema do défice e recuperar um pouco a imagem
das finanças portuguesas no exterior, para efeitos cie concessão de
créditos. Mas quando Ferreira Dias tenta aumentar a carga fiscal é
obrigado a deixar o cargo.
A partir de determinada altura, a Inglaterra volta a ser o parceiro
português na ajuda financeira. 0 reatar das relações amistosas entre
os dois países deveu algo à visita que D. Carlos I realizou em 1897 a
Londres, e também às pretensões alemãs em África, que levam os
dois países da Aliança a reafirmar os princípios do texto de 1661, no
qual a Inglaterra se comprometia a defender os interesses ultramari¬
nos portugueses como se fossem seus.
No início do século a política colonial portuguesa é reforçada pelo
surgimento de João Franco, dissidente e promotor do liberalismo
regenerador, mas tanto os franquistas como os republicanos são bani¬
dos das eleições.
As severas medidas tomadas contra os movimentos revoltosos, as
deportações sem julgamento para Timor e as imposições de carácter
ditatorial têm como resultado um reforço dos movimentos revoltosos
que, em última análise, atingem também a Coroa. E neste contexto
que surgem os movimentos anticlericais no Porto, as revoltas de
estudantes em Coimbra e os tumultos nas Cortes, apenas interrompi¬
dos pela visita a Lisboa de Edurdo VII, em 1903.
Em 1906, D. Carlos chama João Franco para o poder. A ditadura de
João Franco vai mais longe do que tudo o que fora feito antes e em
1907, por decreto, passa por cima da Constituição e dissolve as
Cortes. Depressa os principais munícipes portugueses, descontentes,
são substituídos por comissões administrativas. Muitos jornais são
suprimidos, surgem novos crimes de ofensa política e são criados
novos tribunais para os julgar.
A seguir a uma tentativa falhada de golpe de Estado em Janeiro de
1908, Franco decreta a lei marcial em Lisboa e consegue do rei a
revalidação do decreto que permitia a deportação de inimigos políti¬
cos para Timor. No dia seguinte, o rei e o seu filho primogénito são
assassinados e o segundo filho, Manuel, é ferido. João Franco é des¬
tituído pelo novo rei, e após uma tentativa de virar o exército a seu
favor, refugia-se em Espanha.
A maior dificuldade que D. Manuel II vai encontrar, nos seus dezoito
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anos inexperientes a nível político, é a impossibilidade de promover
nina política de conciliação. Ele restaura a liberdade de imprensa e
de associação, mas os republicanos conquistam cada dia mais adep¬
tos. Operando através de orna sociedade secreta, a Carbonária, vão-
-se infiltrando nas Forças Armadas enquanto o rei, em dois anos,
ensaia a governação com seis executivos diferentes.
As eleições de Agosto de 1910 dão aos republicanos um forte peso
político e em 5 de Outubro de 1910 o regime republicano toma conta
do país sem oposição de monta. D. Manuel II refugia-se em
Inglaterra e a monarquia baixa os braços.
0 governo provisório de Teófilo Braga decretou a separação da Igreja
e do Estado, seciilarizou a educação, aboliu a Faculdade de Teologia
de Coimbra e criou novas universidades em Lisboa e no Porto.
A Constituição de 1911 garantia liberdade de expressão, de associa¬
ção, de crença. O parlamento passava a ser composto por uma câma¬
ra de deputados, eleitos por três anos, e um senado, eleito por seis
anos. O parlamento resultante das eleições não poderia ser dissolvi¬
do nem pelo presidente da Republica. O sufrágio universal cingia-se
aos cidadãos maiores de vinte e um anos, que soubessem ler e escre¬
ver e fossem chefes de família.
O primeiro governo constitucional da República durou dois meses.
As maiores ameaças ao regime provinham das greves gerais constan¬
tes e dos atentados bombistas, mais do que do partido monárquico,
entretanto reforçado com o pacto feito em 1912 entre D. Manuel e o
seu primo D. Miguel.
Em 1914, quando rebenta a Primeira Guerra Mundial, Portugal reve¬
la claramente a sua posição quanto aos territórios africanos.
Anunciando que se mantém neutral, envia tropas para Angola e
Moçambique, onde as incursões germânicas começam a dar-se. E o
factor africano foi decisivo para o parlamento autorizar o governo a
entrar na guerra.
Em Março de 1916, devido à retenção em mar português de vasos de
guerra germânicos, a Alemanha declarou guerra a Portugal e no início
de 1917 uma força de 25 mil homens embarcou para a França e para
a Flandres, onde lutaram de forma valorosa na Batalha de La Lys.
A situação interna continuou tumultuosa e em Dezembro de 1917 um
novo golpe militar depôs o presidente e colocou no seu lugar o chefe
dos militares, Sidónio Pais, que iniciou a Nova República.
O novo presidente amaciou a tensão existente entre a República
Nova e a Igreja e foi sob os seus auspícios que as relações do Estado
português com o Vaticano foram reatadas, abrindo portas à nova
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Concordata de 1940. Mas Sidónio Pais seria assassinado em
Dezembro de 1918.
De 1919 a 1921 sucederam-se no governo dezasseis elencos diferen¬
tes, com consequências graves para o estado precário das íinanças
públicas do país e para o valor do escudo, qne caiu a pique. Em
1921, um novo golpe acaba no assassinato do primeiro-ministro
António Granjo e de cabeças de cartaz da extrema-direita do republi¬
canismo.
Este período tumultuoso só terminou no movimento cie 28 de Maio de
1926, que instaurou a ditadura em Portugal, mais tarde chamada
Estado Novo, e que se propunha restabelecer a ordem. Essa ordem
só seria realmente conseguida depois de 1931, data até à qual se
deram alguns levantamentos, mas nessa altura Carmona já se decla¬
rara a si próprio primeiro-ministro e presidente interino, único sobre¬
vivente do triunvirato que inicialmente conduzira o movimento.
Em 1928, o governo foi buscar para a pasta das Finanças um profes¬
sor de Coimbra que viria a ficar no poder durante quarenta anos.
Nessa altura, Portugal negociara um empréstimo externo com a
Inglaterra cujas condições foram consideradas atentatórias da sobe¬
rania nacional e que, por esse motivo, acabou por ser recusado.
Oliveira Salazar impôs um orçamento restritivo baseado na premissa
de que as despesas do Estado não deveriam ultrapassar as receitas.
Assim sendo, chamou a si a função de adelgaçar os orçamentos dos
vários ministérios e em 1928-29 o orçamento do Estado português,
pela primeira vez em setenta e cinco anos, foi equilibrado. Tal como
seria daí em diante durante o Estado Novo.
Apesar de inicialmente ter tido alguma contestação pela sua rígida
política nas contas públicas, o professor de Coimbra gozava de gran¬
de respeito no meio académico. À medida que as suas decisões mos¬
travam resultados — gerir o orçamento do Estado como uma dona de
casa gere o orçamento familiar - a sua popularidade foi crescendo.
A somar a esse, outros factores na sua idiossincrasia ajudaram à
popularidade deste professor. Juntava às virtudes técnicas um cato¬
licismo firme — chegara a estudar para padre —, uma frugalidade na
vida pessoal e tinha uma aura de asceta.
As notícias de política interna nos jornais de 1929 mostram bem o
carácter ascensional da fama de Oliveira Salazar - todas as iniciati¬
vas das Finanças tiveram lugar de primeira página, e mesmo as que
diziam respeito ao ministro, como estado de saúde, visitas oficiais,
etc., correspondiam a notas na primeira folha dos diários. Salazar
tornar-se-ia primeiro-ministro em 1932 e permaneceria à frente de
52
Perspectiva de uma das avenidas do recinto. Esta pequena cidade arrastava curiosos
a descobrir aspectos culturais de um pais em transformação.
sucessivos governos como presidente do Conselho até 1968, data em
que adoeceu irreversivelmente.
Na viragem para o século XX, Paris continuava a ser a Meca dos artis¬
tas portugueses, que aí lutavam contra a herança inerte do naturalismo
do século anterior. Ou assumiam-na, em formas por vezes patéticas. As
correntes modernistas viriam a entrar em força em Portugal nos anos
30 e a dominar as artes até final dos anos 40. Até isso acontecer, as
décadas de 10 e 20 são marcadas pelo perdurar da herança do século
anterior e pelos primeiros arrojos de diferença, surgindo na cena das
artes portuguesa alguns nomes que mais tarde farão escola.
Em Portugal, como descreve José-Augusto França, o modernismo
entrou pela mão do humorismo na I Exposição dos Humoristas
Portugueses, organizada pelo filho de Bordalo Pinheiro e que se rea¬
lizou em Maio de 1912 em Lisboa. Aí expuseram Almada Negreiros,
Jorge Barradas, Cristiano Cruz e o escultor Ernesto do Canto, eviden¬
ciando evidentes influências alemãs e francesas.
Em 1913, Almada Negreiros faz uma exposição individual, que
Fernando Pessoa destaca em A Águia , e nos anos seguintes o centro
das exposições dos modernistas muda-se para o Porto, abarcando
agora Abel Salazar e A. Basto. O termo modernismo era aqui usado
com pouca parcimónia, sugerindo sobretudo um mundanismo.
O III Salão dos Humoristas, que se realiza em 1920, sintetiza as
linhas gerais desta leva de artistas na qual se destaca uma revitali¬
zação na produção de cartazes protagonizada por Almada Negreiros,
António Soares e Armando Basto.
53
A primeira vaga de futurismo é entretanto assumida por Santa-Rita
Pintor, e continuada na revista Orplieu , de Mário de Sá-Carneiro. 0
futurismo começou por ser polémico a nível das suas interpretações
políticas, sobretudo nas prosas de Fernando Pessoa e Álvaro de
Campos, Raul Leal e Almada Negreiros - este com o manifesto
anti-Dantas. A seguir ao suicídio de Sá-Carneiro em Paris, José
Pacheko abre uma galeria em Lisboa apelidada de Salão dos
Futuristas e cujo momento alto é a exposição de Amadeo de Souza-
-Cardoso, que apesar de reclamar para si uma diversidade de estilos
— entre os quais o cubismo — logo foi rotulado de futurista. Almada
Negreiros é o grande paladino público de Souza-Cardoso, que des¬
creve como sendo “a primeira descoberta de Portugal na .Europa do
século XX”.
Em Abril de 1917, Almada Negreiros tem oportunidade de enunciar
os princípios do futurismo ao apresentar publicamente o seu
“Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX”, con¬
tinuado depois na única edição da revista Portugal Futurista , cujo
mentor era Santa-Rita Pintor.
0 “Mandato de Despejo aos Mandarins da Europa”, de Álvaro de
Campos, publicado nesta revista, é considerado por José-Augusto
França o texto fundamental do futurismo português. Nele o naciona¬
lismo é fundido de forma feliz com o futurismo num manifesto final
de “Voltar costas à Europa”, “saudando abstractamente o infinito”.
Este manifesto será completado no final da década pelo ensaio do
heterónimo de Pessoa “Para Uma Estética Não Aristotélica”, publi¬
cado na revista Athena.
0 final dos anos 20 encerra o ciclo da primeira geração de modernis¬
tas. Morrem entretanto em 1918 Amadeo de Souza-Cardoso e Santa-
-Rita Pintor; Almada Negreiros, desiludido, prepara-se para partir
para Paris. A influência da escola francesa continua a ser dominante
no modernismo português dos anos 30. Até final desta década desta¬
cam-se nas artes nacionais nomes como o do pintor Eduardo Viana,
que já expusera em 1911 e que aprofunda o impressionismo e o
cubismo, Abel Manta e Dórdio Gomes.
Muitos outros artistas haveriam de marcar as novas correntes estéti¬
cas nas décadas de 30 e de 40; outros, já referidos, haveriam de ser
consagrados em Portugal no período posterior ao da Exposição
Internacional de Barcelona. É o caso de Almada Negreiros, cuja
deambulação entre Lisboa e Paris é curto-circuitada por uma estada
em Madrid.
Antes da sua segunda viagem à capital francesa, Almada escreve
54
(mas não publica) o romance Nome de Guerra e fornece o café
A Brasileira do Chiado com dois quadros seus, no que constitui uma
espécie de iniciação ao estatuto de pintor reconhecido. Mas é na
capital espanhola que Almada Negreiros faz a sua primeira grande
exposição de desenhos, decora cinemas e zonas da Cidade
Universitária. Almada ficaria em Madrid até 1932, data em que
regressa a Portugal e inicia uma carreira polémica e de sucesso como
artista multifacetado de forte pendor nacionalista.
0 pintor António Soares foi um dos humoristas do início do século
que partilha a decoração das paredes do café A Brasileira e cio clube
Bristol com Almada. Ilustrador da moda, Soares inclinar-se-ia para o
decorativismo, tal como Jorge Barradas que, com um percurso seme¬
lhante, dedicar-se-ia mais tarde à cerâmica. Dentro dos humoristas,
destacam-se ainda as figuras de Emmerico Nunes e Stuart
Carvalhais, ilustradores populares que vão também marcar presença
nas encomendas de A Brasileira do Chiado e Bristol.
No campo da escultura viria a distinguir-se em 1928 Francisco
Franco, autor do monumento a Gonçalves Zarco, que se consagraria
pelo seu rigor formal como o correspondente na estatuária ao traba¬
lho pictórico de Nuno Gonçalves.
Na arquitectura, o modernismo começaria a ser visível já nos anos
30, mas é possível encontrar alguma obra em final da década de 20
dos principais obreiros desta transformação: Cristino da Silva
(Capitólio, liceu de Beja, moradia de Natal da revista Eva\ Pardal
Monteiro (Instituto Superior Técnico, Instituto Nacional de
Estatística) e Carlos Ramos (Pavilhão do Rádio), numa linha raciona-
lista inspirada por Le Corbusier e Gropius.
No campo das publicações, além das já referidas, merece destaque
a revista de José Pacheko, Contemporânea , lançada em 1922 e de
gosto assumidamente modernista, com uma prática acentuada
de mundanismo e nacionalismo. De resto, no panorama da imprensa
dos anos 20 abriam as portas aos modernistas apenas o Diário de
Lisboa e, ocasionalmente, o ABC , a Ilustração , o Magazine Bertrand
e, a partir de 1926, 0 Sempre Fixe. Nas publicações literárias conta¬
vam com colaboradores da nova vaga a Seara. Nova , O Diabo
e a Presença.
Foi em 1924 que A Brasileira do Chiado encomendou onze telas aos
modernistas de Lisboa: Almada, Viana, Soares, Barradas, Stuart e
Pacheko, quadros que manteria até 1970. As obras foram expostas
pela primeira vez no Salão de Outono de 1925, iniciativa de Viana
que foi de grande sucesso e que reuniu dezenas de artistas. Apesar
55
de inúmeras tentativas de dar continuidade a esta iniciativa, só cinco
anos depois um salão de modernistas viria a atingir o sucesso do
Salão de Outono.
Nos anos 30 e 40 o modernismo português consegue impor-se ao
nível do gosto oficial pela mão de António Ferro que, por sorte, é um
dos cicerones disponíveis para a Exposição Internacional de
Barcelona.
SOLENIDADES DOS PRIMEIROS DIAS
H exposição de Barcelona foi inaugurada com a pompa e a solenida¬
de previstas. Na altura, nada indiciava os acontecimentos que se
precipitariam durante o seu tempo de vida, e que faria dela um pro¬
duto híbrido. Internacional aquando da abertura, mais tarde nacional
por força da inércia e da ultrapassagem dos prazos estipulados... Filha
do génio catalão mas também da vontade do ditador, de que ficaria
óifã antes da data de encerramento prevista... Orgulhosa do capitalis¬
mo de mãos dadas com a indústria, e pilhada depois da queda da
Bolsa de Nova Iorque pelos industriais necessitados de reaver os bens
mostrados... Tantos anos adiada pela adversidade, para acabar adiada
ela própria pela falta de vontade de lhe dar um fim...
Os Portugueses puderam seguir as peripécias da inauguração pela
pena de António Ferro. Ele próprio mais tarde um extraordinário
fazedor de propaganda, eficaz porque conhecedor e talentoso. Na
altura o mais famoso globe-trotter do jornalismo português, António
Ferro chegou a Barcelona alguns dias antes da inauguração da expo¬
sição. A crónica impressionista, de escrita fácil, do que viu, abria a
manchete do Diário de Notícias de 21 de Maio de 1929.
Nesta época, António Ferro não tinha ainda iniciado a série de entre¬
vistas a Salazar que o lançariam como o motor do marketing político
do Estado Novo (seria director do Secretariado da Propaganda
Nacional e da Secretaria Nacional da Informação e Turismo entre
1933 e 1950) mas afirmara-se já como escritor modernista, o benja¬
mim do grupo do Orpheu , como conferencista provocador e como
catalisador de alguns grupos de dinamização cultural. Para lá da sua
capacidade criativa como escritor e dramaturgo e do curso de Direito
que quase terminou, António Ferro cedera na época da sua ida a
Barcelona a uma paixão maior: o jornalismo internacional.
A exposição de Barcelona parece ter impressionado realmente António
Ferro. Não tanto por se fazer fé no expediente narrativo mas porque
56
mais tarde algumas das construções que refere nesta crónica foram por
si poslas em prática, enquanto secretário da Informação e Turismo: o
concurso “A aldeia mais portuguesa de Portugal” e a fundação do
Museu de Arte Popular, por exemplo. E quem sabe se o facto de ter
sido secretário-geral da Exposição do Mundo Português e dos
Centenários de 1940 não nasceu da exaltação que se cita e que surgia
sob o título: “No Parque de Montjuic - A exposição de Barcelona e o
milagre da Catalunha”. “Barcelona é a cidade infinita de Espanha.
Tudo lhe serve de pretexto para aumentar, para subir, para crescer.
Está constantemente em obras, obras que não são palavras, obras em
A abertura das portas da Exposição. Na presença real e das classes dirigentes
consumava-se, perante milhares de pessoas, o milagre da Catalunha.
cimento armado, em mármore, em ferro, obras que saem das suas fábri¬
cas, fumo que sai das chaminés e não se perde... sempre em obras,
sempre... Ontem, hoje, amanhã... Uma orquestração permanente de
picaretas, roldanas, guindastes e martelos. Todos os dias uma nova está¬
tua, uma nova praça, uma nova ponle, um novo arranha-céus... Não há
produção literária que chegue a esta produção vital, a estes volumes
que surgem, diariamente, nas estantes das ruas... A Exposição de
Barcelona é apenas uma erupção mais violenta desta ânsia de infinito,
deste vulcão nervoso da Catalunha. A exposição de Barcelona é uma
cidade sonhada por outra cidade, uma brincadeira de gigantes...”
57
Os hóteis cie Barcelona destinados aos turistas da exposição obede¬
cem a nina fria lógica numérica. O Hotel número 1 é o hotel rico, o
número 2 é em princípio exclusivo para senhoras... António Ferro
fica instalado no Hotel número 3 onde se sente arrumado como qne
numa gaveta. Na janela do cpiarto 210, com vista para a Praça de
Espanha, os ritmos de Barcelona não pedem licença para entrar: 44 A
sinfonia de sempre, a sinfonia da colmeia: a ânsia do terminar e a
certeza do nunca mais terminar... Depois de uma praça outra praça,
depois de uma rua outra rua... A exposição de Barcelona não é nem
quer ser um teatro de papel: é o monumento que Barcelona está
levantando a si própria.”
E Ferro não resiste à comparação com Sevilha, por essas alturas tam¬
bém em festa de exposição: 44 A exposição de Sevilha, pelas atitudes
que lhe conheço, deve ser uma exposição mulher, algo de cigana e
bailadeira, corpo e imaginação de Xehrazade, romantismo e volúpia,
o banco dos namorados e o banho da sultana. A exposição de
Barcelona, ao contrário, é uma exposição máscula, severa, america¬
nizada, os doze trabalhos de Hércules. A Praça da Catalunha tem um
leque nas mãos, o leque da velha Praça de Touros. Chama-se ‘Arenas
de Barcelona’, perfume da Andaluzia que chegou ali sem se saber
porquê...”
A fonte da Praça de Espanha, na altura ainda ladeada de tapumes
deixando perceber a sua monumentalidade, não podia deixar de ser
assustadora para o escriba. 44 Ao centro da Praça de Espanha, uma
fonte monumental que eu tenho medo de ver acabada. Gosto dela tal
como está, meia coberta por tapumes, defendida ou atacada por
andaimes altos, torres de madeira que evocam as guerras primitivas,
os complicados aparelhos medievais... Tenho receio de certas inge¬
nuidades, de certos meninos bisbilhoteiros, traquinas, que se adivi¬
nham através da armação, das vigas, do vai e vem das máquinas...
O que irá dar à luz aquele bloco entrapado, emparedado... Enfim...
Ninguém diga da água da fonte não beberei... E possível que a fonte -
e quem sabe se será uma fonte - me deslumbre e me convença,
depois de acabada, tal como o Palácio Nacional, verdadeiro estandar¬
te da exposição, direi melhor, Sua Excelência El-Rei do Parque de
Montjuic.”
Suficienlemente conhecedor do modernismo e homem de grande cul¬
tura no campo artístico, António Ferro não consegue mais do que
uma admiração condescendente pelo esforço que representa o
Palácio Nacional. Palácio cuja função é evidente. 44 Não há que dis¬
cutir estilos, orientações, não há que meditar sobre pormenores de
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" O Palácio Nacional é o maestro rígido, severo, que agitará, amanhã, como batuta,
a bandeira de Espanha..."
bom ou de mau gosto, há que ficar esmagado sob o peso da obra
monumental, única, o verdadeiro dó de peito de Barcelona. Aquilo é
enorme como esforço, como ânsia, como ascensão. A harmonia
suprema dos contrastes: cúpulas, torres, minaretes, janelas, arcarias,
portas, arquitraves, tímpanos - um céu de arquitectura sobre
Barcelona. Em frente do panorama, da cidade orquestrada pelo tra¬
balho quotidiano, febril, o Palácio Nacional é o maestro rígido, seve¬
ro, que agitará, amanhã, como batuta, a bandeira de Espanha...”
O maestro de que fala António Feno encerra os símbolos máximos da
grandeza da exposição. Entrar no Palácio Nacional é essencial para se
perceber os sinais do orgulho de Espanha. São mármores, escadarias
reais, colunas com caprichos, parquetes espelhados, grades de ferros
que são rendas de bilros em mãos de gigantes, tapeçarias da fábrica do
Prado, panos de Airás, damascos, tapetes enormes, paramentos. A sala
principal, concebida para albergar a cerimónia inaugural da exposição,
anuncia-se com capacidade para 15 mil pessoas. Decorada para um
destino real, com armas bordadas de todas as cidades espanholas à
volta das galerias. Armas de Espanha bordadas a oiro em veludo ver¬
melho, emprestadas pela casa da Granja de Segóvia. Galerias, brasões,
escudos, um órgão preparado para tocar na hora do início da festa, a da
largada das pombas brancas. A rivalizar com a sala do trono, a sala
museu ostenta armaduras, quadros de Pauto ja e Sanchez Coello, faian¬
ças de Tala vera, iluminuras, o escudo de Portugal, punhais e gravuras...
60
Seguindo a sensibilidade deste cicerone, a sensação ao deixar o
Palácio Nacional é a de milionário fatigado. Logo recomposto pela
frescura do Pueblo Espanhol, por onde se entra pela porta cie Ávila.
“Lá dentro é o maravilhoso tapete de retalhos, uma rua fresca da
Andaluzia, uma dessas ruas que dão apertos de mãos, mãos entrela¬
çadas, uma casinha galega aconchegada como uma boina, a
Esclavitud de SanPIago, certas portas medievais curvas como
sobrancelhas, janelas românticas, varandas gradeadas, vasos de cra¬
vos, a loja do ferreiro com a sua enseigne recortada e abelhuda, a
Barberia Arcos de Pas , audaciosa como laçadas de gaúcho, uma venta
sevilhana com os seus mosaicos e a sua majestosa cabeça de toiro,
um cruzeiro galego coroado pela dor de Jesus, igrejinhas, farrapos de
cátedra... E, finalmente, a Plaza Mayor, ao centro do Pueblo, com as
suas amostras que não se zangam, que não chocam, casas diferentes,
rostos diversos, olhos azuis, castanhos ou cinzentos, mas de mãos
dadas e de almas dadas. 0 Pueblo Espanhol da exposição, catálogo
vivo de uma pátria, justifica uma viagem a Barcelona. Maravilhoso
estúdio para uma série de filmes espanhóis. Entrar no Pueblo é
Ainda hoje é esta a imagem que recolhe a memória de 1929. A força, a criatividade
e o empenho catalães espelham-se na imponência do Palácio Nacional.
folhear a Espanha, é entrar, devagarinho, na alma de uma raça...”
As impressões não têm fim, como Barcelona não tem fim. “Continua!
Continua! é o grito das picaretas, dos martelos, dos guindastes, das
roldanas, das máquinas que britam, das máquinas que asfaltam, dos
61
Vista da avenida principal do recinto. Por aqui entraram milhares de pessoas
à descoberta da alma espanhola.
automóveis, o grilo de Barcelona, a ordem suprema da Catalunha!...”
Relatam as crónicas que eram cerca de 500 mil os presentes na
manhã da inauguração da exposição, uma multidão multicolor aper¬
tada na praça em frente ao Palácio Nacional. Espanhóis, na sua
maioria, com salpicos de grupos de outros países da Europa, enga¬
nando a espera com saudações, brados e palmas aos voos rasantes
dos zepelins e aviões que, de vez em quando, sobrevoavam a praça,
desenhando arabescos sobre Montjuic. Os relatos cie portugueses
descortinam no meio da confusão uma ou outra bandeira portuguesa.
Certamente entre bandeiras de outros países representados, que na
62
sua maioria contaram com representações oficiais no primeiro clia.
Um pouco antes das onze horas as personalidades que aguardavam a
chegada do rei e da sua comitiva começaram a alinhar-se segundo as
regras do protocolo. À (rente, o general Primo de Rivera e os grandes
de Espanha. E também o corpo diplomático estrangeiro e o alto
clero. Académicos e funcionários de lodos os organismos oficiais de
Barcelona em linhas paralelas, alargando o grupo inicial. Ladeando o
caminho a percorrer por D. Afonso XIII e sua comitiva colocou-se a
guarda de honra. Que nesta ocasião não contava só com os oficiais
especiais cio rei mas também os do município e de delegações
estrangeiras.
63
0 grupo oficial de Portugal incluiu uma representação de alto nível:
o recém-nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros português,
Quintão Meireles. Juntamente com o embaixador de Portugal em
Espanha, Quintão Meireles encabeçou o grupo de oficiais do cruza¬
dor Vasco da Gama ., expressamente enviado de Lisboa para esta sole¬
nidade e chegado na véspera ao porto da cidade. Perfilados,
aguardavam também a chegada de Afonso XIII, que ficara hospeda¬
do no Palácio de Pedralbes. Na ficção de Eduardo Mendonza que
reconstitui este momento, é um rei um pouco irritado e com uma per¬
sistente desconfiança dos Catalães que se dirige para a cerimónia:
“Sua Majestade D. Afonso XIII ia calçando as luvas pelos salões e
corredores do Palácio de Pedralbes, em direcção a cuja saída um
camarista o conduzia. Que disparate!, pensava, um palácio tão gran¬
de para dormirmos um par de noites. As passadas que dava obriga¬
vam o séquito a adoptar um trote curto; só a rainha, que era inglesa,
podia sustentar o seu passo sem esforço aparente, inclusivamente ir
falando com ele enquanto andavam. Já reparaste? perguntava-lhe
sem afrouxar a marcha, esta é a segunda Exposição Universal que
inauguro em Barcelona. Na anterior era um fedelho de dois anitos
apenas; claro que não me lembro de coisíssima nenhuma, mas a
minha mãe costumava contar-me estas coisas. As recordações da sua
infância eram sempre recordações oficiais: o pai, D. Afonso XII,
tinha morrido mesmo antes de ele nascer. Já nasci sendo rei de
Espanha, costumava dizer. No momento do parto as parteiras e as
enfermeiras tinham feito a vénia antes de lhe açoitarem as nádegas
para lhe provocarem o primeiro choro. Isso tinha-o feito ficar muito
ligado à mãe desde o princípio. Agora ela acabava de morrer. Aos
quarenta e quatro anos todas as coisas acontecem já pela segunda
vez, no mínimo, disse, ao subir para a berlinda blindada que havia
de conduzi-lo a Montjuic.”
As palavras inaugurais do marquês de Fronda, director-geral da
exposição e do alcaide de Barcelona não chegaram a ser ouvidas fora
do salão do palácio. A acreditar em versões que noutros campos se
mostraram moderadas, as palavras do general Primo de Rivera sofre¬
ram de maiores contrariedades do que as acústicas, uma vez que a
multidão aproveitou o anonimato para lhe lançar algumas vaias, con¬
trariadas de imediato por fortes aplausos. Os relatos da época dão
conta de forte salva de palmas. Descrições posteriores da mesma
cena referem uma vaia em uníssono. 0 rei recebeu o corpo diplomá¬
tico para os cumprimentos da praxe, após o que assomou à varanda e
declarou inaugurada a exposição. Foi o sinal para a anunciada lar-
64
gada de 40 mil pombas. No meio de um burburinho geral, milhares
de asas brancas voaram soltas sobre Montjuic, seguidas pelos olhos
da multidão. Até que um rumor de água obrigou as cabeças a baixar
e concentrou as exclamações de espanto nas fontes, espalhadas por
todo o recinto, que iniciaram o seu jorro. A seguir à água ouviram-se
as sirenas, os morteiros, o hino de início de actuação da banda. De
espanto em espanto, a multidão ficou suspensa por um instante. Mas
logo ganhou fôlego e invadiu as ruas e praças.
Nessa noite os reis de Espanha ofereceram um banquete para cerca
de mil pessoas. Desse banquete, António Ferro guardou uma memó¬
ria viva que dias depois publicaria no Diário de Notícias numa sabo¬
rosa crónica de costumes: “Saboreio essa visão moderna, a visão
duma rainha a fumar diante de mil pessoas. Nem a mais ligeira alte¬
ração no seu perfil, na sua majestosa imobilidade. Dir-se-ia que está
sonhando que fuma um cigarro e que nós vemos o sonho à transpa¬
rência dos seus olhos. (...) Senhoras portuguesas! Sua Majestade a
Rainha Vitória Eugênia fuma o seu cigarro de quando em quando,
mas fuma como uma rainha e não cruza a perna... Reparem bem:
Fumar como uma rainha é um pouco diferente de fumar como um
homem, mesmo quando esse homem é um rei.”
Os primeiros dias da exposição foram dedicados a diversas solenida¬
des. E o caso da cerimónia de bênção da cidade pelo bispo de
Barcelona, mas também da inauguração de alguns pavilhões como o
65
da Bélgica, da Dinamarca, da França e da Espanha. Inauguraram-se
ainda os estádios e realizou-se o Congresso Luso-Espanhol para o
avanço das ciências. Quarenta professores portugueses participaram
neste congresso.
As contas ao tamanho de cada pavilhão, à quantidade de exposi¬
tores de cada país e às individualidades nacionais presentes em
cada acto e banquete concentraram as atenções sociais durante os
primeiros dias. No dia 26, uma semana depois da inauguração, os
reis de Espanha visitaram a zona onde se expõem as peças
portuguesas.
0 ponto alto do protocolo da representação portuguesa foi um ban¬
quete oferecido pela Câmara de Comércio Portuguesa, durante o qual
o ministro Quintão Meireles entregou a Cruz de Cristo ao marquês de
Fronda. Outros países aproveitaram a primeira semana para marcar a
sua presença. Como a França, que realizou um grandioso baile, uma
récita de teatro lírico pela Opera de Paris e um concerto. Decorreram
ainda nos primeiros dias um concurso hípico, provas desportivas e
uma festa ri ja andaluza no Pueblo Espanhol.
Mas no fim da primeira semana de festividades muito estava ainda
por acabar no recinto da exposição. Nas ruas poeirentas e, nalguns
casos, improvisadas, milhares de operários continuavam a trabalhar,
contrastando este frenesi de última hora com a grandiosidade da obra
já feita. Sete dias depois da abertura, nada se sabia ainda quanto ao
que viriam a conter os palácios da Electricidade, do Trabalho, das
Projecções, dos Transportes, cuja conclusão estava atrasada.
Depois de inaugurado pelos reis de Espanha, o pavilhão da Bélgica
voltou a encerrar para ser terminado. 0 da Alemanha, ao fim de sete
dias de exposição, era ainda apenas uma parede de mármore. E ape¬
sar de ter ficado pronto a tempo, o pavilhão francês revelou-se uma
desilusão para os intelectuais desejosos de aí respirar um pouco da
espiritualidade que a França desses tempos evocava. Contemplava
uma exposição de artes decorativas, perfumes, marroquinaria, moda,
moedas e jóias Cartier. Para além de uma mostra de automóveis, a
que não era alheio o facto do senhor Citroen ser director do comité
francês.
Nada disso, no entanto, seria suficiente para desviar a atenção do
visitante dos jogos de água, luz e cor, sem dúvida a realização mais
bem conseguida da exposição de Barcelona. Aos quais António Ferro
também não resistiu. “À entrada uma avenida de lâmpadas gigantes¬
cas, troncos de luz que não são varinhas mas varas de condão.
Repuxos aviadores que se elevam e morrem, cascatas que são peças
66
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de seda que a mão de um gigante desdobrará sem repouso, fontes
que são poetisas e rimam com outras fontes... jogos de água que são
jogos de meninas de cabelos caídos a saltar à corda.”
Mas mais que tudo, é Barcelona que merece a última homenagem
do jornalista: “Subo até aos jardins de Miramar: o grande olhar, o
olhar definitivo sobre Barcelona. 0 casario torvo da metrópole
fabril. Milhares e milhares de telhados, as cabeças de uma infinita
mullidão, chaminés, arranha-céus, agulhas de catedral, gestos alti¬
vos de Barcelona, gestos irmãos, um sorriso de um pároco, o traço
de uma avenida, a clareira de uma praça, a alegria das mirambulas.
Colombo que vai descobrir outro novo mundo na altura do seu
pedestal, toda uma cidade de braços erguidos para o altar de
Montjuic, andar aos ombros da Catalunha... Debaixo dos meus
68
olhos, o porto sonegado onde estão guardados, como se fosse numa
caixa sem tampa, os barcos estrangeiros e os barcos espanhóis
embandeirados infantilmente. Apetece pescá-los à linha como se
fossem peixes. Longe do grupo, noutro molhe, sozinho no seu orgu¬
lho, o nosso Vasco da Gama, com os seus dois canos e com o lenço
gritante da nossa bandeira a dizer-lhe adeus... No cais, centenas de
caixotes. Têm automóveis dentro - dizem-me. Tão pequenos me
parecem que supus que só tinham charutos. 0 olhar perde-se
panorama. Barcelona segue, mârcha — não sei para onde. Montjuic é
um pormenor. Os 140 milhões de pesetas que se gastaram na expo¬
sição, uma insignificância. O Palácio Nacional, mais um palácio.
O Pueblo Espanhol um brinquedo. A grande exposição de 1929 está
diante dos meus olhos: é Barcelona.”
69
UM ROTEIRO SELECCIONADO
uma exposição deste tipo faz sentido cruzar dois tipos de aborda¬
gem, seguindo as linhas mestras da concepção do evento. Há um
aspecto mais geral, que se prende com o que poderemos chamar uma
visão da floresta. Vista de fora e de longe, a exposição obriga a um
deslumbramento dos sentidos, pretende impressionar pela grandilo¬
quência. Neste nível, o olhar segue a monumentalidade dos edifícios,
a vastidão dos espaços, aceita as regras da forma, luz e cor. 0 outro
nível, a que podemos chamar o das árvores, trata da minúcia, do
número e da variedade. Sem que a memória se sinta tentada a reter
tudo, mas ajudando a um sentido geral de universalidade. Mostra-se
tudo, porque está lá tudo. E esse tudo é moderno, excitante, cientí¬
fico e técnico. Falamos da função formal dos espaços e do que eles
albergam.
0 Palácio da Agricultura é composto de dois edifícios, um pórtico
para mostrar maquinaria agrícola e um espaço para uma exibição de
floricultura. Trata-se de um dos espaços mais extensos da exposição.
Está dividido em dois grupos de construções. 0 primeiro é construído
por três corpos de edifício: o de entrada, o da exposição de viticultura,
oliviticultura e etnológica e o da exposição de produtos agrícolas.
0 segundo é um edifício destinado à exposição de maquinaria agríco¬
la. No meio do Palácio foi construída uma praça, no centro da qual
estão instaladas as estuf as destinadas a conter plantas delicadas.
Na secção de Agricultura têm lugar manifestações de agronomia,
estudos da terra e das águas, mapas agrológicos e agronómicos, divi¬
são de terreno cultivável, classificação dos animais domésticos e
instituições que têm por objectivo o desenvolvimento da agricultura,
crédito agrícola, seguro agrícola, legislação, livros, memórias, esta¬
tísticas, explorações agrícolas, modelos de estabelecimentos rurais,
materiais e procedimentos de veterinária e de engenharia rural,
maquinaria agrícola, viticultura, indústrias agrícolas, adubos quími¬
cos, produtos agrícolas alimentícios de origem animal e vegetal, pro¬
dutos agrícolas não alimentícios, horticultura, arboricultura e
floricultura, hortaliças, árvores de frutos e frutos, arbustos e flores
para decoração, grãos e sementes, etc. Expõem neste palácio a
Alemanha, Áustria, Checoslováquia, Espanha, EUA, França,
Holanda, Itália, Suíça e Jugoslávia.
0 Palácio da Arte Têxtil, que inclui mostras da Alemanha, Áustria,
França, Itália, Suíça e Espanha, referentes a material e procedimen¬
tos de tecelagem, branqueamento, tinte, estampado, apresos, tecelã-
N
70
gem a tecidos de algodão, linho, cânhamo, produtos de cordoaria, f ia¬
ção e tecidos de seda, artigos de malha, rendas, bordados, retroses, e
máquinas para a indústria têxtil.
0 Palácio do Vestido, mostra indústrias diversas de vestuário, mar¬
roquinaria, chapelaria, camisaria e lençaria, gravatas, calçado, ben¬
galas, chapéns-de-chiiva e de sol, botões, fivelas, peles de luxo, seda
artificial, etc.
0 Palácio das Indústrias Químicas mostra utensílios e aparelhos de
laboratório destinados a ensaios industriais, material, aparelhos e
procedimentos para a fabricação de superfosfatos, xaropes, velas
e glicerina, para a preparação de água oxigenada, cloro, hiperclora-
tos, sódio e outros produtos químicos extraídos de vegetais, vernizes,
material e procedimentos para imunizar as águas de consumo, álcool
metílico, acetona, ácido acético, material e procedimentos para a ela¬
boração de produtos farmacêuticos, tratamentos das matérias mine¬
rais próprias para a iluminação e aquecimento (hulha, petróleo,
esquisitos, etc.), matérias e procedimentos para a elaboração de dro¬
gas de todas as classes, sabões, gorduras e matérias colorantes;
explosivos, fósforos, pirotécnica; tintas, pinturas, etc.
0 Palácio da Metalurgia, Electricidade e Força Motriz é um local
destinado a mostras relacionadas com geração e utilização da electri¬
cidade. Produtos de energia eléctrica, motores, dínamos de fluido
contínuo e alterno. Electroquímica. Pilhas, acumuladores, galvano-
plastia, aplicação da química industrial. Iluminação eléctrica em
todas as suas manifestações. Aplicações diversas da electricidade.
Aquecimento por estufas, elevadores, gruas, aparelhos científicos e
fornos eléctricos. Força motriz, produzida pelo homem e pelos ani¬
mais, motores de ar e água, máquina a vapor e motores térmicos de
gás, petróleo, éter, álcool, amoníaco e outros líquidos voláteis.
Aparelhos diversos de mecânica. Reguladores e acumuladores, rol¬
danas, correias, cabos de transmissão, aparelhos para medir e com¬
provar o rendimento das máquinas. Com a Espanha, apresenta os
seus produtos neste palácio a Alemanha.
0 Palácio das Artes Industriais e Decorativas expõe tudo relativo a
mobiliário, ebanística e carpintaria artística, cerâmica, vidrarias
artísticas, metais, ferros artísticos e bronzes, papéis pintados, corti¬
nados e tapetes, coiros e marroquinarias, pratarias, decoração de
igrejas, arte litúrgica, peles, florões artificiais, ourivesaria, brinque¬
dos, bonecos e diferentes artigos de bazar, porcelanas e louças.
Expõem neste palácio, além da Espanha, a Alemanha, Áustria,
Itál ia, EUA e Suíça.
71
Palácio de Afonso XIII. Destinado às mostras do Japão, Finlândia e
uma grande secção de França, onde se expõe sobretudo arquitectura.
E lá que se encontra também a exposição da Acção Feminina de
Barcelona.
Palácio da Artes Gráficas. E ocupado sobretudo com salas de exposi¬
ções. Mostra aparelhos e máquinas empregues na litografia, tipogra¬
fia, impressão e calcografia, máquinas de imprimir e compor em
preto e em cor e diferentes formas da técnica de impressão. 0 livro
nos seus aspectos técnicos, livros antigos e modernos, colecção de
obras, encadernação. Aplicação da fotografia às artes gráficas, repro¬
duções das cores por meio da fotografia, gravuras. Fotografia. Provas
obtidas por meio da impressão tipográfica de matrizes em relevo.
Mapas topográficos, fotogravado e cromotipia. Expõem a Alemanha,
Áustria, Espanha, França e Itália.
Palácio das Artes Gráficas. No seu interior uma mostra exaustiva de maquinaria
e técnicas utilizadas na impressão, encadernação e cromotipia.
Palácio das Projecções, com palcos e cabina de projecção de cinema,
contém tudo o que diz respeito a fotografia e cinematografia.
Aparelhos com ampliações e projecções e para tricromia, acessórios,
objectivas e obturadores, lâmpadas, filtros, suportes, etc.
Palácio das Comunicações e Transportes. Exibe o relativo a cami-
nhos-de-ferro, material fixo e móvel. Locomotivas, carruagens para
passageiros, carruagens-camas, carruagens-restaurantes; aquecimen¬
to dos comboios automático e contínuo; aparelhos de sinais nas
linhas férreas, planos e maquetas de edifícios com destino aos servi-
72
ços ferroviários e carros eléctricos. Automóveis e camiões de todas
as classes. Expõem juntamente com Espanha a Alemanha, Áustria,
França, Itália e Suíça.
Palácio Rainha Vitória Eugênia. E onde se albergam as representa¬
ções estrangeiras que não têm pavilhão próprio como a Áustria,
Suíça, Noruega, Dinamarca, Jugoslávia, Suécia e também algumas de
Espanha.
Palácio de Material Desportivo. Comporta representações desporti¬
vas de diversas modalidades, com os respectivos regulamentos.
O Núcleo das Artes de Espanha desenvolve-se em dois edifícios e é
sobretudo um compêndio histórico, remontando à pré-história, pas¬
sando pela civilização romana, as épocas muçulmana e da reconquis¬
ta, os reis católicos até à actualidade, num total de cerca de 15 mil
peças. Um dos edifícios é o Palácio Nacional, de 19 metros de altura
e com 38 salas — o maior de todos os edifícios da exposição. 0 seu
salão de festas tem capacidade para abrigar 20 mil pessoas e ocupa
uma área de 5 mil metros quadrados.
O outro edifício, chamado de Palácio da Arte Moderna, destina-se
especialmente a pintura, desenho e escultura. A técnica da pintura e
do desenho, instrumentos e materiais, obras e colecções, os grandes
mestres da pintura, a técnica da escultura, materiais: barro, gesso,
madeira, mármore, bronze e cinzéis. Obras e colecções escultóricas,
moedas, medalhas. A escultura consoante as diferentes épocas,
escolas e assuntos e os grandes mestres da escultura.
73
0 Núcleo dos Desportos. Tem como construção principal um estádio,
com campo de jogos e capacidade para 60 mil espectadores.
0 campo de jogos compõe-se de um campo de futebol, de râguebi e
pistas de saltos e de lançamentos, bem como pistas para corridas. Há
ainda campos de ténis, boxe, esgrima e ginástica, uma piscina para
jogos aquáticos e pavilhões de clubes desportivos.
No Pavilhão das Missões o objectivo é dar a conhecer a obra dos
missionários espanhóis ao longo da história, através de textos, repre¬
sentações gráficas e em diversos congressos que se realizam neste
espaço. As salas do edifício mostram imagens sagradas, quadros de
santos e mártires missionários, explicam feitos históricos da conver¬
são, mostram associações auxiliares das missões e revelam com deta¬
lhe missões da índia, Ceilão, Indochina, China, Japão, Oceania,
Marrocos e América.
Palácio da Cidade de Barcelona. Este edifício consta de porão, rés-
-do-chão e primeiro andar. No porão há uma instalação do porto fran¬
co de Barcelona, com o projecto do mesmo e diversas vistas do porto
actual. No rés-do-chão encontra-se uma instalação relativa aos servi¬
ços cia Câmara Municipal de Barcelona. No primeiro andar há uma
sala dedicada à origem da cidade de Barcelona e outra destinada à
apresentação da evolução da mesma através dos tempos, com dese¬
nhos e gravuras. Noutras salas apresenta-se a história da imprensa e,
de um modo particular, da imprensa em Barcelona.
O Palácio do Estado Espanhol contém as aportações dos diferentes
74
Centros Ministeriais e dependências oficiais. Estão representados,
entre outros, a Cidade Universitária, Ministério do Trabalho e
Provisão, Direcção de Montes, Serviço Hidrológico e Florestal,
Direcção-Geral de Obras Publicas, Instituto Nacional de Previsão,
Escola Superior de Minas, Minas de Almaden, Fábrica da Moeda e
Estampilha, Ensaio do Cultivo do Tabaco, Marinha, Farmácia
Militar, Laboratório Central, Intendência, Sanidade Militar, Instituto
de Higiene, Artilharia, Fábricas de Granada e Múrcia, Fábrica
Nacional de Múrcia, Pirotécnica Militar de Sevilha, Fábrica de
Armas de Oviedo, Fábrica Nacional de Toledo e Estabelecimentos
Industriais de Engenheiros.
Palácio das Diputaciones. Este palácio é destinado a conter as dife¬
rentes aportações das Diputaciones Espanholas por meio de gráficos,
planos e maquetas, e um conjunto de serviços mais importantes que
têm encomendados.
Casa da Imprensa. Com todas as comodidades da época para que os
jornalistas possam cumprir o seu papel.
O Palácio da Imprensa era o quartel-general dos jornalistas que cobriam o acontecimento.
Servia também de hotel, dispondo de quartos e restantes comodidades.
Os países presentes na exposição seguem as regras gerais do jogo da
exposição e acrescentam-lhe a da particularidade. Alguns países
destacam-se no conjunto pela imagem que impõem à sua presença.
Ciente do seu papel, o cônsul de Portugal em Barcelona relata para o
Ministério do Comércio e Turismo português as prestações de países
terceiros, seleccionando os produtos industriais:
75
“Os Estados Unidos da América ocupam uma extensão de doze mil
metros quadrados. (...) As aportações deste pais lêm como nota
característica a perfeição e a máxima modernização. Podem citar-se
em primeiro lugar os automóveis e camiões escolhidos, tanto uns
como outros não só entre os modelos e tipos principalmente reco¬
mendados pela economia mas também os mais luxuosos e de maior
rendimento.”
Notabilíssima também a aportação das industrias eléctricas com as
suas aplicações práticas, relacionadas com a iluminação, a radiotele-
grafia, o aquecimento, a tracção, a regularização do tráfico, etc., e
lambém os adiantamentos realizados na fabricação de máquinas de
escrever, de calcular, produtos e artigos de borracha, válvulas, cabos,
etc., etc.
Inglaterra. Grande numero de reputados e modernos fabricantes con¬
correm à Exposição Internacional de Barcelona. Famosa é a solidez e
excelência da fabricação inglesa, sendo os produtos que a Inglaterra
exibe uma nova prova desta verdade. Caracterizam a secção britâni¬
ca principalmente pela maquinaria, utensílios e ferramentas de aço,
motocicletas, gramofones, artigos de borracha, alimentos patentea¬
dos, etc. A secção inglesa ocupa uma superfície de cinco mil metros
quadrados.
Holanda. Na secção de Holanda reuniu-se um grande numero de
expositores seleccionados. (...) Resulta a aportação colectiva dos por¬
tos de Amsterdão e Roterdão, junto com as principais companhias cie
navegação e dos estaleiros dos mencionados portos. Isto responde à
necessidade que sente a Holanda de dar a conhecer as facilidades
que tem para estabelecer relações com a colónias holandesas e
intensificar o intercâmbio comercial, que tantos benefícios pode tra¬
zer tanto à Holanda como a Espanha.
Japão. Ao organizar esta secção, a Associação Japonesa de
Exposições teve em conta as condições especiais do Japão para atrair
os visitantes, pelo que se respira uma verdadeira atmosfera japonesa
típica ao entrar na referida secção.
Defronte da entrada vêem-se as portas do Templo de Nara e, ao des¬
cer, à esquerda, encontramo-nos na formosa sala Coloong Tea, servi¬
da por verdadeiras japonesas, vestindo o típico traje nacional. Nesta
secção há uma esplêndida exposição de obras de arte japonesa, anti¬
gas e modernas, trazidas por diferentes regiões do Japão. Em trinta e
seis stands expõem-se centenas de amostras de diferentes mercado¬
rias japonesas, representando os vários distritos do império nipónico
entre os quais se salientam: Iocoama com bordados e quimonos;
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Tóquio com marfins lavrados e bronzes; Nagóia com porcelanas;
Shizuoka com objectos de charão; Quiolo com bordados em seda e
cloisonné ; Osaka com bronzes; Kobe com bronzes e cestarias; Kaga
com porcelanas; Tokaoka com chapéus-de-sol e leques; e Nara com
objectos diversos.
Afora o indicado também se encontram na secção japonesa objectos
de arte chinesa de Cantão, Xangai e Tietsin, tais como xailes, tape¬
tes, bordados de sedas, porcelanas, etc.
Países Orientais. Estes países estão representados dentro de um só
local denominado Pavilhão Oriental, em cujo recinto homens e
mulheres ataviados com os típicos trajes dos seus respectivos países
apresentam e oferecem amostras das suas artes e industrias. No
numero destes países encontram-se: índia, Birmânia, Ceilão, Hong-
-Kong, Malta, Palestina, Egipto, Pérsia, Turquia, Afeganistão, etc.
Jugoslávia. Na exposição internacional de Barcelona a Jugoslávia
tem, a mais do que o seu próprio palácio, diversos stands no Palácio
Afonso XIII e obras de arte no Palácio de Arte Moderna.
A Jugoslávia com o seu palácio simboliza um dos seus principais
produtos de exportação, dando uma ideia da sua força económica,
expondo excelentes madeiras, produtos agrícolas, curiosidades etno¬
gráficas, minerais, forças hidráulicas, comunicações, turismo e vá¬
rios ramos da economia nacional.
A Suíça expõe nos seguintes palácios: indústrias têxteis, comunica¬
ções e transportes, agricultura e Vitória Eugênia. Constam das suas
exposições esplêndida relojoaria, máquinas e aparelhos diversos,
máquinas têxteis, géneros de seda artificial e bordados, automóveis e
camiões, produtos alimentícios, produtos químicos, pianos, acessó¬
rios têxteis, etc., havendo uma representação e magnífica manifesta¬
ção dos diversos ramos da indústria suíça.
A Suécia trouxe à exposição internacional de Barcelona amostras das
sua principais indústrias, tais como a de madeira, pasta de madeira
da qual é a principal exportadora da Europa, minerais, máquinas
diversas, ferramentas, desnatadoras e material para leitarias, mate¬
rial agrícola, fósforos e outros diversos artigos.
0 pavilhão da Roménia, que está num dos pontos mais altos da expo¬
sição, é constituído por uma sala de vastas dimensões e construído
inteiramenle em madeira. A Roménia apresenta diversas manifesta¬
ções das suas indústrias, comércio, agricultura, assuntos mineiros,
sondas de petróleo, artes domésticas, artes aplicadas, arte religiosa,
monumentos históricos, material agrícola, arte moderna, teatro,
música, desportos, etc.
7a
A Noruega, embora não possa preencher grandes espaços como o
fazem outros grandes países industriais, apresenta no entanto bastan¬
te do que representam as suas relações comerciais com a Espanha.
(...) Mostra as diferentes formas de pesca, preparação e embalagem
do bacalhau para exportação, diversas conservas, óleo medicinal,
industria papelaria e celulose, cimento, objectos para desportos, e
industrias metalúrgicas.
A Itália construiu um famoso palácio cujo edifício tem uma estrutura
clássica inspirada na arquitectura romana. Ali se apresentam diver¬
sas amostras de arte italiana em cerâmicas magníficas, mosaicos,
mármores, mobílias de arte, alabastros, damascos, porcelanas, etc.
A Hungria oferece uma variadíssima manifestação das obras caracte¬
rísticas húngaras das artes aplicadas e de produtos de manufactura
popular e doméstica. Numa primeira sala admiram-se porcelanas,
trabalhos de cerâmica, bordados, trabalhos de coiro, objectos de
prata, plásticas em miniatura, etc. Numa segunda sala chama pode¬
rosamente a atenção dos visitantes os trajes típicos e os bordados à
mão, as cerâmicas e os objectos artísticos. Numa terceira sala apre¬
senta o referente a trabalhos e instrução comercial e artística, tais
como mobílias, trabalhos têxteis, tapetes, peles, pratas, objectos de
cristal, jóias, etc.
A França traz à Exposição Internacional de Barcelona diversos pro¬
dutos da sua riqueza agrícola, pastas alimentícias de todas as clas¬
ses, indústrias açucareiras, bolachas e chocolates, frutas em
compota e marmeladas, conservas alimentícias e cervejaria. As
principais casas de moda de Paris apresentam toda a classe de con¬
fecções, manequins, chapéus, meias, rendas, bordados, mobílias
antigas e modernas, lâmpadas, tecidos para decoração, jóias, porce¬
lanas, etc. A indústria do automóvel apresenta uma extensa colecção
de automóveis, camiões e autocarros.
A Finlândia tem a sua exposição no Palácio Afonso XIII e apresenta
diversas mostras da sua indústria, principalmente do ramo da madei¬
ra, da qual tem um grande movimento comercial.
A Dinamarca tem pavilhão próprio onde expõe uma magnífica colec¬
ção de quadros modernos, tais como paisagens encantadoras e lindas
marinhas da Dinamarca, bem como mobílias típicas do país. Também
tem uma secção no Palácio Vitória Eugênia, na qual expõe máquinas
agrícolas, tais como batedoras e prensas de pastos, máquinas frigorí¬
ficas; modelos de barcos a vapores, artes decorativas, porcelanas,
cristais artísticos, cerâmica e conservas, etc.
Os industriais da Checoslováquia há tempos que têm montadas em
79
Vista geral da Exposição.
O olhar perde-se no panorama.
Espanha instalações de fábricas de cerveja, de açúcar, destilarias
bem como fábricas de electricidade. E esta nma razão a mais para
que a Checoslováquia prestasse o seu concurso à Exposição
Internacional de Barcelona, onde expõe no Palácio Meridional,
apresentando cristais de Boémia, pedras semipreciosas, porcelanas,
ferro esmaltado, mobílias, etc.
Sabido é que a Bélgica, apesar da reduzida extensão do seu territó¬
rio, ocupa um dos primeiros lugares no que se refere a indústria e
comércio, devido à sua magnífica organização e à energia dos seus
habitantes, cuja actividade reina em todos os campos da indústria.
Na exposição de Barcelona tem palácio próprio, no qual expõe amos¬
tras das suas principais indústrias tais como ferro fundido, aço em
bruto, zinco em bruto, vidros e os seus famosos cristais, tecidos de
algodão e lã, seda artificial, artigos de papel e papelão, metais e pro¬
dutos de metal, pedras preciosas e semipreciosas, maquinaria, mate¬
rial eléctrico, máquinas agrícolas, ferramentas, cimentos e rendas de
Bruxelas e de Bruges, mobílias, calçado, etc. Estão expostos uma
grande variedade de automóveis, autocarros, camiões de diversos
tipos, motocicletas, bicicletas, pneumáticos, câmaras-de-ar e tudo o
que diz respeito a este género de locomoção e transporte.
0 concurso da Áustria à Exposição de Barcelona tem por objecto
demonstrar que este país produz e fabrica muitos artigos destinados
ao comércio espanhol, tais como máquinas e as suas diversas peças,
automóveis, papel e artigos de papel, artigos de coiro, artigos de
luxo, artigos de modas, ourivesaria, artigos de prata, cristais, porce¬
lanas, mobílias, etc.
A indústria e o comércio alemães pretendem mostrar perante os cír¬
culos industriais e comerciais espanhóis a actual situação de desen¬
volvimento da economia alemã. O material exposto na Exposição
Internacional de Barcelona dá uma ideia aproximada da laboriosida-
de alemã. No Palácio da Arte Têxtil expõe uma grande colecção de
máquinas para fabricar tecidos, meias, rendas, artigos de malha em
seda natural e artificial, etc. Em outros diferentes palácios expõe
máquinas agrícolas, máquina para fazer calçado, aparelhos de elec¬
tricidade, anilinas, brinquedos diversos, magníficos objectos de
prata, porcelanas da Saxónia e muitos e variados produtos da desen-
volvidíssima indústria alemã.»
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